Com fortes medidas de austeridade e um avanço considerável do desemprego – que caminha para 1/3 da população ativa – a Grécia atravessa um dos períodos mais negros da sua história e isso reflete-se em todos os aspectos da sociedade, como no caso do acesso à cultura.
Por esta razão, e temendo também a sufocante hipótese de ver um decréscimo acentuado do público, o Festival de Cinema de Atenas – que abre hoje as portas – decidiu tomar medidas, distribuindo por quem estiver numa situação de desemprego mais de 125 bilhetes diários para as sessões do evento, que vai decorrer durante os próximos 10 dias na capital (1250 bilhetes no total).
Para além desta medida, houve ainda uma quebra generalizada do custo dos bilhetes, procurando assim minorar os efeitos da crise que afeta os helénicos.
Uma programação onde a «austeridade» não escapa
Para além da competição internacional onde se incluem obras de diversas temáticas sociais e políticas, como a prostituição (Eden) e a emigração (Una Noche), o certame apresenta em diversas secções muitas obras locais que invariavelmente falam da situação débil do país.
Um dos focos é «Demokratia, the Way of the Cross», um trabalho ainda inacabado e que contou com a participação de cinco cineastas (Katerina Patroni, Haris Raftogiannis, Christophe Georgoutsos, Nikolia Apostolou, Giannis Misouridis). Esta peça documental acompanha as últimas eleições gregas, acompanhando bem perto as ações de campanha dos quatro maiores partidos helénicos (os socialistas do Pasok, a Nova Democracia, a esquerda radical do Syriza e os extremistas da Aurora Dourada). Mais do que um trabalho dos bastidores da campanha, este é um projeto que mostra a política na Grécia do século XXI, nunca se recorrendo a comentários ou uma narração explicativa, mas deixando o espectador tirar as suas próprias conclusões.
Outro filme em foco é «Dogs, cat, rats», uma história com contornos românticos que regressa ao passado: uma Atenas a entrar no ano de 2007. Aí, e já nessa altura, a cidade estava repleta de conflitos e protestos violentos contra a onda de privatizações que se iniciava.
O fim da ilusão da Europa como terra dos sonhos
Talvez uma das fitas mais curiosa deste festival seja «Attractive Illusion», obra que acompanha a comunidade nigeriana em Atenas em tempos de austeridade e na forma como estes tentam acabar com ilusão africana que a Europa é um paraíso. Esta vaga de desilusão africana (e europeia) tem estado particularmente em foco nos últimos tempos, seja através dos «Indignados» de Tony Gatlif, ou do italiano «La-Bas Educazione criminale» de Guido Lombardi. Na verdade, a perseguição do sonho de uma vida melhor esbarra com uma situação de desemprego crescente no velho continente, vitimando muitas destas comunidades ao total desamparo e exclusão. No caso especifico desta obra, ela foi construída tendo como base depoimentos reais e improvisação do elenco – que forneceu as suas próprias experiências ao filme.
As curtas também choram
Nas dezenas e dezenas de curtas metragens gregas apresentadas numa secção própria, a situação grega surge das mais variadas formas e tons, ora caindo mais no realismo social, no surrealismo, na parábola e mesmo em escapistas tragicomédias. De um grupo de amigos que fará tudo para conseguir um chocolate (na curta «Munchies»), passando por um casal que tenta a todo o custo um espaço na cidade calmo para namorar (na curta «In Public»), ou do regresso dos titãs que devoram os filhos de Atenas sob o comando de um demónio (na curta «Athens Evilution»), não esquecendo um pobre trabalhador que é confundido com um político e perseguido por uma multidão em fúria (na curta «Vicious Circle»), o cinema grego mostra que a sua principal fonte de inspiração actual é a sua crise…

