«The Deflowering of Eva van End» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

Eva (Vivian Dierickx) é o patinho feio de uma família de classe média holandesa que vive na sua casa suburbana entregue à mais profunda miséria relacional. O pai, Evert (Ton Kas), é obcecado por eficiência laboral, ainda que ninguém lhe dê muito valor por isso. A mãe, Etty (Jaqueline Blom), é uma dona de casa tristonha e depressiva sem qualquer paz ou vida própria – a não ser cuidar da família. O vazio emocional destes trespassa para os filhos, extremamente inseguros e problemáticos, cada um à sua maneira. Manuel (Abe Dijkman), o mais novo, passa os dias a fumar ganzas e vagueia neste mundo com uma falta de ambição preocupante. Já Erwin (Tomer Pawlicki), o primogénito, é daquele tipo que procura crescer antes do tempo, envolvendo-se numa relação e planeando mesmo sair de casa, isto se o acne o deixar. 
 
No meio disto existe Eva, figura invisível no seio familiar e frequentemente humilhada na escola por uma juventude cruel que trocou ideais pela total cultura das aparências.
 
Tudo vai mudar no seio desta família amorfa quando chega Veit (Rafael Gareisen), um alemão que aproveita um programa de intercâmbio de estudantes para conhecer mais um país do mundo, o que serve de antagonismo a este grupo. Veit é uma personagem quase andrógina, com rosto celestial e uma atitude de paz e de sentido de ajuda do próximo que irá profundamente afetar as rotinas desta família entre o estado comatoso, o cinismo e o sofrimento do não ter um propósito na vida. Esta figura exterior que vem abalar com o sistema de uma família pouco coesa não é uma novidade (longe disso), mas aqui a personagem ganha alguma eficácia extra pelo seu tom constantemente apaziguador e voluntário, mesmo quando ridicularizado.
 
 
Vivian Dierickx como Eva
 
Realizado por Michiel ten Horn – conhecido pelas curtas-metragens «Basta» (07), «Alex in Amsterdam» (09) e «Arie» (09), «The Deflowering of Eva van End» é um filme que encontra no cinema independente americano do final dos anos 90 e início de 2000 a sua maior inspiração (Noah Baumbach, Wes Anderson, Arie Posin, Mike Mills, etc). 
 
Aliás, a disfunção familiar em seio suburbano sempre foi uma das temáticas preferidas do circuito indie norte-americano, e Horn usa uma verdadeira caixa mágica de truques e tiques para criar um filme holandês que se não fosse a diferença línguistica, poderia ser considerado um primogénito de Sundance, ou em último caso…um estudante holandês num programa de intercambio em Park City. É essa intensa e imposta colagem estilística (e absurdista) que – por vezes- torna tudo demasiado plástico e montado de modo «perfeito demais», de forma a agradar a programadores de festivais.
 
 
Ainda assim, o tom carismático e divertido de todas as personagens presentes nesta história levam, inevitavelmente, a bons momentos tragicómicos que nos conseguem prender até ao desenlace, mesmo que o enterrar da criancice na figura de um coelho seja demasiado simbólico e demonstrativo da pouca subtileza que rodeia toda a fita.
 
O Melhor: As personagens conseguem, mesmo quando estão dentro do tom profundamente caricatural, atrair a nossa atenção e levar-nos a que nos preocupemos com elas.
 
O Pior: Sofre de indieose, uma «doença» que afeta muitos filmes feitos e trabalhados para agradar a festivais da linhagem indie
 
 
 Jorge Pereira
 

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