Veneza 2012: O retrato de um Portugal devastado em «As Linhas de Wellington»

(Fotos: Divulgação)
 
 
As consequências da política da terra queimada e o périplo de um grupo de refugiados por montanhas e planícies devastadas é o tema do filme da única obra portuguesa presente na seleção oficial do Festival de Veneza 2012. “As Linhas de Wellington” traça um ambicioso panorama histórico sobre a terceira invasão francesa, que trouxe o exército de Napoleão até as proximidades de Torres Vedras – onde os ingleses, sob a liderança do general que dá nome ao filme (vivido por John Malkovich), tentaram barrá-los com uma enorme linha de fortificações.

Mais do que no aspeto político das invasões napoleónicas e na sua relação com os ingleses, o argumento de Carlos Saboga (de “Mistérios de Lisboa”) preferiu concentrar as atenções na esfera social – traçando um grande panorama da vida em Portugal num momento difícil, a tentar sobreviver sob as duras condições da guerra – um quotidiano de morte, medo, miséria e fome. Para dar corpo aos personagens, um vasto e imponente elenco recheado de figuras nacionais (Nuno Lopes, Carloto Coto, Soraia Chaves) e internacionais (além de Malkovich, nomes como Catherine Deneuve, Michel Piccoli e Isabelle Hupert). 

A produção aproveitou parte da equipa de “Mistérios de Lisboa”, projeto de Raul Rúiz, que também seria o realizador deste filme se não tivesse falecido em 2011 antes do início das filmagens. A obra acabou por ser concluída pela esposa e colaboradora de Ruiz, Valéria Sarmiento, e o filme acaba por ter também um caráter de homenagem ao realizador. «Provavelmente ele teria feito outro filme com seis horas de duração e provavelmente ele teria abordado mais histórias», confessou a realizadora em Veneza, certame onde «As Linhas de Wellington» tiveram a sua antestreia na última terça-feira (04/09), recebendo aplausos do público presente. Os atores portugueses do filme também fizeram a sua passagem pela passadeira vermelha, destacando-se Soraia Chaves e Nuno Lopes.
 
Valéria Sarmiento

Já entre a imprensa internacional, houve reações variadas. Para o britânico The Guardian, “Sarmiento entrega um filme cheio de vida, que deixaria Ruiz orgulhoso”. Menos entusiasta, o norte-americano Hollywood Reporter diz que o filme utiliza “um estilo antiquado” mas que, menos ousado do que seria se o trabalho fosse de Ruiz, funciona bem com a sua proposta – a de ser uma lição ilustrada de história. A Variety, por sua vez, faz uma dura crítica ao filme, que depois de o comparar com Mistérios de Lisboa, elogiado, crítica o estilo, a abordagem histórica e diz que o resultado final é “indigesto”.

«As Linhas de Wellington» estreia em Portugal no dia 4 de outubro.

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