Estreou finalmente em Veneza um dos filmes mais esperados, não só pela imprensa italiana, que encontrou nele um favorito, mas como dos amantes de cinema.
Falamos de «Bella Addormentata» (“A Bela Adormecida”), uma obra de Marco Bellocchio (Vencer) que pega num conjunto de personagens para seguir de perto o caso de Eluana Englaro, uma mulher que ficou num estado vegetativo na sequência de um acidente de carro e que, posteriormente, se tornou o foco de uma batalha judicial entre apoiantes e opositores da eutanásia.
O caso teve um enorme impacto em Itália, um país que prima por uma forte corrente católica. De pessoal, o caso rapidamente se transformou em tema religioso e mais tarde político, numa sociedade que se confrontou nas ruas, nos tribunais e no senado, especialmente depois de Silvio Berlusconi tentar impor uma lei que forçaria os médicos a retomarem a alimentação artificial da vítima através de um tubo. Englaro acabaria por morrer enquanto os senadores discutiam o projecto de lei numa sessão, mas esse não foi de todo o final do debate.
Isabelle Huppert
Curiosamente, parece que coube ao cineasta apaziguar agora a questão – que ainda é uma ferida aberta da sociedade italiana. Na conferência de imprensa, Bellocchio explicou a necessidade de uma postura dogmática sobre o tema, pois «seria errado usar a película como uma bandeira ideológica (…) As minhas ideias são certamente diferentes das de algumas personagens do filme, mas consigo encontrar algo que me ligue a eles».
Esse é talvez o maior triunfo do filme, segundo a imprensa – que aplaudiu na generalidade a obra. Bellocchio, um homem que confessa não ter fé mas que olha para a religião com interesse e curiosidade, pegou numa questão tabu, mas centrou-se em implicações particulares, crescendo posteriormente para uma aula universal sobre um estado de uma nação emersa em sentimentos contraditórios. A tudo isto, o cineasta acrescentou também o desespero dos políticos, muitas vezes entre a espada e a parede por questões partidárias que contrariam os seus princípios ideológicos.
Toni Servillo em Veneza
Rodeando-se de atores bem conhecidos pela sua capacidade interpretativa, como Toni Servillo e Isabelle Huppert, Belocchio cria assim uma obra rica em questões e onde a fé, o livre arbítrio, o amor e a politica tomam conta da atenção do espectador da mesma maneira que tomaram de assalto todas as dúvidas e confusões de uma nação.

