Les Gouffres: uma viagem às profundezas da mente em pleno Festival de Locarno

(Fotos: Divulgação)

Em termos geomorfológicos, Gouffre é traduzido (em linguagem técnica) como Algar em português e Pit Cave em inglês. Na sua essência, é uma cavidade natural de desenvolvimento predominantemente vertical. “Estes buracos” existentes por debaixo do solo, criados de forma natural (ou pela água ou por movimentos de lava), servem de metáfora neste «Les Gouffres» (presente na secção Cineastas do Presente no Festival de Locarno) para uma visita às profundezas da mente.
 
A atriz Nathalie Boutefeu desempenha o papel de esposa de Georges Lebrun(Mathieu Amalric), um professor que após a descoberta de cinco algares numa região muda-se para o local para os investigar. A partir daqui, e enquanto Lebrun investiga os fenómenos geomorfológicos, o cineasta Antoine Barraud (que jaá teve, pelo menos, um trabalho exposto no IndieLisboa) conduz-nos a outras profundezas, às da mulher, à sua psique, toda ela repleta de tremores de terra, deslizamentos e exposta à erosão diária do relacionamento. A opção do realizador em dar ao seu filme um tom entre o fantástico e o pesadelo é meritória, pois cria uma densidade, uma sensualidade e uma tensão que nos acompanham até bem perto do final dos seus curtos 60 minutos.
 
 

E apesar da pequena aparição de Amalric neste filme (que tem uma versão curta e uma versão longa), a grande força motriz desta obra é Boutefeu, muito segura na sua insegurança e sempre firme na sua confusão mental e busca da sua identidade e do seu ser. À tona vêm assim as suas fantasias, mas também os medos, num filme sobre uma busca interior entre a ansiedade da descoberta e o medo daquilo que se vai descobrir.

No final, profundamente inquietante, uma derradeira sequência liberta toda a magnificência das capacidades de expressão da protagonista, dando ao mundo a visão de uma atriz com capacidades excepcionais e que se calhar merecia palcos mais elevados.
 
 

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