Basil da Cunha
Apresentou em Locarno «Os Vivos Também Choram»
Depois da menção honrosa em Cannes, na secção da Quinzena dos Realizadores, e de vencer o prémio nacional no Curtas Vila do Conde, Os Vivos Também Choram, do luso-suíço Basil da Cunha, foi exibida no festival de Locarno, na secção Apellations Suisses, dedicada às produções helvéticas que estiveram presentes e obtiveram algum sucesso em festivais internacionais durante o ano. E o curioso é que nessa sessão dupla, que antecedia um documentário, houve muita gente que saiu, após o aplauso. Foi também o que fizemos, seguindo o realizador para o apanhar e procurar recolher algumas declarações. Algo que não foi logo possível, porque foi logo alvo de outras manifestações de entusiasmo.
Foi fácil de perceber que é já um filme da maturidade, uma curta que já grita pelo grande formato. Percebe-se também a verdade daquelas personagens dos bairros sociais de Lisboa, da nossa “favela”, no caso algumas zonas do bairro da Reboleira onde também Basil mora com a sua companheira Íris, que tivemos também o prazer de conhecer. Foi esta a conversa possível até cair a anunciada chuvada. Quando já o chamavam para o dialogo com o público.
No filme, entramos de rompante numa conversa de copos, atravessada por diversos dramas pessoais. Mas logo percebemos que tudo está no seu lugar. A anarquia é apenas aparente, porque o domínio da câmara é evidente, a verdade das personagens está lá. E a montagem de som e imagem dá-nos o bom cinema. José Pedro Gomes é o único ator a sério. Ainda que os amadores sejam igualmente convincentes. Ele é um homem desamparado pela vida, com o sonho quimérico de ir para a Suécia. O fado dele é que a sua mulher usou as poupanças dele para comprar uma máquina de lavar xpto, que lava e seca… Ainda assim, depois do pesadelo, encontra a esperança remota num uniforme de capitão de um barco prestes a zarpar para o seu destino de sonho. É, pois, no sonho musicado que ficamos. Mesmo que seja com um fado tocado dentro de um contentor e com o “comandante” a dirigir a parada.
José Pedro Gomes
Este é a última curta antes da longa, que já sei estar filmada. E é, uma vez mais, um filme, onde está presente essa ideia de partida. Algo, afinal de contas, tão português, embora no teu caso seja diferente, ou seja, é mais um regresso às origens…
É, de facto, um tema recorrente nas minhas curtas anteriores. Essa ideia de fuga no sonho para contrariar a realidade que impede as pessoas de voar. O sonho é sempre o meio que as pessoas usam para sublimar o real.
É também um pouco isso que é o cinema? Foi um pouco isso que te levou a fazer cinema?
Sim, claro, contar histórias.
Já tens uma experiencia internacional, correste os festivais todos. Foi difícil entrar neste circuito?
Eu não gosto do meio do cinema. Não tenho amigos no cinema. Fiz isto sozinho, com os rapazes da Reboleira e do bairro onde morava na Suíça. Sempre fizemos filmes independentes. Fizemos uns dez filmes sem apoio. A nossa produtora é também um pouco particular. Mas eu só faço o meu trabalho e é ele que fala por mim. Não perco energia nem tempo, como certos fazem a trabalhar as relações. Estou fora disso. Vou a festivais só defender o meu filme. Fazemos tudo junto. É um processo ativo.
Nasceste na Suíça, mas és também português…
Eu sou português! Claro que sou português! Estou a viver na Reboleira já há cinco anos. Tudo o que aparece no filme, com a exceção das docas é a Reboleira, com atores com quem trabalho já há cinco anos. Todos não profissionais. Eu aprendo com eles e eles comigo. Nesta longa foi espetacular, porque estamos já a chegar a um ponto de maturidade.
Falemos então da longa. Está filmada…
Está filmada, está montada, estou a legendar. É um projeto espetacular, tivemos dois meses a rodar…
Calculo que seja o prolongamento lógico das curtas…
Tal e qual. Exatamente.
Já tem título?
Chama-se ‘L’Enfant de la Lune’, ‘O Filho da Lua’.
É um bom título.
O que é fantástico é que é um filme com quase nenhum dinheiro e com uma qualidade incrível. Tanto na imagem como nos atores. E só conseguimos fazer esta longa com quase 50 atores com a união de todos estes rapazes lá do bairro.
Qual é a história?
A história é a de um gajo que sai de cana, está a dever dinheiro a uma espécie de gangue. Ele é um marginal num meio já marginal e vai ser julgado de uma certa maneira, não pelo que ele fez, mas pelos sinais que tem. Cada vez que tenta fugir ao destino, mais ele se afunda.
Apetece já perguntar: consideras-te também um marginal? Há um lado marginal no teu cinema?
Claro que há, claro que há. Eu faço cinema de forma marginal. Reinventámos o sistema de produção. Já não existe a hierarquia que tentavam impor. Funcionamos agora com uma liberdade maior. Mas tudo tem um preço: é uma margem com muito pouco dinheiro. É esse o preço da nossa liberdade. É isso que é ser marginal.
Como é que ele se chama o teu ator?
É o Pedro Ferreira. É um rapaz fantástico, é um “ganda” ator mesmo. Não fizemos nenhum ensaio antes de começar a rodagem, mas posso dizer que foi o melhor ator com quem trabalhei.
Há algo de ti nesta personagem?
Como em todas as histórias. Apesar de não ter vivido essas experiências. Mas claro que há. É como ‘O Estrangeiro’ do Albert Camus. Ele vai ser julgado pelo facto de ser diferente. A única maneira de tentar fugir ao seu destino vai ser com o sonho.
Só para terminar: o que te levou a fazer cinema e quais os cineastas que admiras?
É o Miguel Gomes e o Pedro Costa. Há outros, mas estes inspiram-me muito. O Pedro porque nunca está acima das pessoas que filmam. O Miguel porque é o realizador mais corajoso que conheço. É um trabalho que me dá uma grande força. Algo que lhe agradeço.
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