O meu Festival de Cannes, por Paulo Portugal

(Fotos: Divulgação)
Após duas semanas de total imersão nos filmes da competição, mas também na correria entre os diversos hotéis para cumprir um audacioso programa de entrevistas, aqui ficam os apontamentos possíveis sobre a cobertura da 65ª edição do Festival de Cannes.



Antes de mais, confesso que falhei três dos 22 filmes em competição: o egípcio «After the Battle», de Yousry Nasrallah, e os dois coreanos – «In Another Country», de Hong Sang-soo, e «The Taste of Money», de I’m Sang-soo – que não tiveram qualquer menção na premiação. Por isso mesmo, não serão mencionados no nosso report.

Depois, importa acrescentar que foi um festival de alto nível. Mesmo sem a descoberta de obras-primas, embora, verdade seja dita, também isento de verdadeiras deceções. Ou seja, a seleção oficial de Gilles Jacob e Thierry Frémaux confirmou os créditos do melhor festival de cinema do mundo. Ainda assim, não deixa de merecer as suas críticas. 
Na edição dos 65 anos de idade, a idade da reforma, pedia-se uma Palma de Ouro de frescura, revitalização de cinema novo. E logo numa competição que refletia isso mesmo. O tema da criança, adolescente ou jovem dominou nas mais variadas temáticas. Mas não, venceu «Amour», um filme correto e escorreito sobre o pacto da dedicação até ao final de um casal octogenário interpretado com sentida entrega por Jean-Louis Trintignan e Emmanuelle Riva. Ter-lhe-ia ficado muito melhor um Prémio do Júri ou um Grande Prémio, ou até mesmo prémios de interpretação para o par de atores. 
O próprio júri a isso indiciava. A atriz e realizadora palestina, Hiam Abbass, o costureiro francês Jean-Paul Gaultier, a atriz alemã Diane Kruger, o ator britânico Ewan McGregor, a realizadora e argumentista britânica Andrea Arnold, o realizador, argumentista e produtor americano Alexander Payne, a atriz francesa Emmanuelle Devos, o realizador, argumentista e produtor do Haiti, Raoul Peck, bem como o presidente, o realizador, ator e produtor italiano, Nanni Moretti


Antecipava-se, e comprovou-se depois, que as decisões não foram fáceis. O voluntarismo assumido de Moretti, a grande variedade de filmes candidatos, a diversidade dos jurados. É assim o serviço do júri, feito de compromisso, abdicação e consenso.
 
Haneke ,  Jean-Louis Trintignan e Emmanuelle Riva
 
Não tocando nos evidentes méritos do trabalho do septuagenário Haneke, completados em março passado, que vence a sua segunda palma três anos depois de «O Laço Branco», o júri liderado por Nanni Moretti poderia ter olhado para outro lado. Sobretudo porque «Amour» não arrisca nem oferece nada de novo. Pode até mencionar-se que se trata do filme de tema mais pesado de toda a secção – a par do pouco interessante «Vous N’Avez Rien Vu», do nonagenário Alain Resnais, a completar no dia 3 de junho.
Tocante, em tom teatral – o filme desenrola-se quase na totalidade no interior de um apartamento -, uma história comovente e, claro, com o peso do autor. Pelo menos, Rita Blanco pode gabar-se de ter participado no filme da Palma de Ouro, ainda que apenas em duas curtas cenas, em que traz as compras e tem um breve dialogo e outra em que aspira a casa. Bom,  o filme (já se disse) – foi o preferido das escolhas das diversas publicações diárias de industria presentes no festival -, mas infeliz a escolha para a Palma.

É que opções à Palma de Ouro não faltavam. E, assim, estaríamos agora a falar de outra coisa. Senão vejamos. «The Hunt», de Thomas Vinterberg, teria sido uma óptima escolha. É um filme sobre uma falsa acusação de pedofilia produzida por uma menina de cinco anos com uma atração emocional pelo vizinho, interpretado por Mads Mikkelsen. Ele que viria a ganhar o prémio de interpretação masculina. Para além do tema de alguma sensibilidade popular, importa perceber que o filme é conduzido com todo o cuidado pelo realizador fundador do movimento Dogma.
 
 Mads Mikkelsen
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A nossa classificação:

MOONRISE KINGDOM *****

RUST AND BONE ***

REALITY ***

PARADISE: LOVE ***

LAWLESS *

BEYOND THE HILLS ***

LOVE ****

THE HUNT ****

VOUS N’AVEZ RIEN VU  **

KILLING THEM SOFTLY ***

THE ANGEL’S SHARE ***

AMOUR ****

ON THE ROAD **

HOLY MOTORS *

THE PAPERBOY *

POST TENEBRAS LUX ****

COSMOPOLIS ***

IN THE FOG ****

MUD **** 

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