Presente na secção Un Certain Regard, “Butterfly Vision” é dos filmes que mais se fala em Cannes devido à sua temática. Assinado por Maksym Nakonechnyi, o filme segue a libertação de uma soldada ucraniana, que no seu regresso à sua pátria descobre que está grávida de um soldado russo que a violou quando esteve em cativeiro.
Intenso e brutal, “Butterfly Vision” começou logo a sua chegada a Cannes com um protesto no tapete vermelho, com a equipa do filme a carregar uma faixa que dizia: “Os russos matam ucranianos. Acham ofensivo e perturbador falar sobre esse genocídio?”. Os envolvidos também seguraram quadrados transparentes na frente dos rostos que mostravam o símbolo online de um olho com uma barra, que nas redes sociais ou na web geralmente alerta para conteúdo perturbador que podem ou não optar por ver.
“A grande intenção do protesto era trazer uma maior compreensão ao que sentimos como ucranianos hoje em dia”, explicou ao C7nema o cineasta. “Existe uma grande solidariedade global, mas as vezes há certas posições e decisões de ucranianos que são de certa forma marginalizadas por serem consideradas radicais ou inapropriadas. A nossa identidade como ucranianos está sob ataque, as nossas gentes continuam a morrer e a serem torturadas. É por isso que estamos desesperados e fazemos o que for possível para travar isto. Quando cobrimos os nossos rostos queríamos mostrar que também cada um de nós está sob ataque. Nós artistas, nós cidadãos ucranianos estamos sob uma ameaça. Nós, como indivíduos, estamos sob a mira deste genocídio.”
Quando questionado pelo C7nema se Sergei Loznitsa, que revelou estar contra o boicote ao cinema russo, e o próprio festival de Cannes, que escolheu um filme de Kiril Sbrenikov para a sua competição, estavam na mira desses protestos, Maksym Nakonechnyi respondeu: “No nosso caso não tivemos o privilégio de escolher se a nossa cultura fazia parte desta guerra. Além de nós cidadãos, a nossa cultura está também sob ataque. A sua mera existência está em risco. Se os russos decidirem que não pode existir uma cultura ucraniana, temos de tomar decisões de forma a mostrar resiliência e resistir. Mas simultaneamente, a Rússia usa a sua cultura como uma ferramenta de destruição maciça e até justificação da mesma. Quando alguns cineastas (como Sergei Loznitsa) excluem-se deste protesto, é em si uma decisão de não tomar ações. E mostram também a sua incompetência ao não tomarem atitude contra uma ferramenta da guerra. A guerra tem sido desvirtuada igualmente, pois achar que ser artista e fazer arte chega para a luta. Eu vi, com os meus próprios olhos, tanques russos com inscrições e citações de filmes russos. Quando declaras que a tua identidade é russa, então fortaleces a posição deles. (…) Nós estamos em guerra. A Rússia é uma participante da guerra, Por isso, quando declaras e te identificas como russo, automaticamente falas em nome dessa posição.”
Com noção que esta vai ser uma longa batalha, Maksym crê que é muito importante os artistas e outras personalidades do mundo cultural da Ucrânia mantenham o tema em cima da mesa, pois senão tudo vai acabar como a Síria, que continua em guerra e pouco se fala.


