O filme “Piccolo Corpo“, de Laura Samani, foi o grande vencedor da Festa do Cinema Italiano.
“Através de uma ótica contemporânea, o filme escolhido dialoga com o passado, abordando a busca do reconhecimento, identidade e resiliência. A obra desagua numa catarse existencialista que perdura no imaginário do público até o último suspiro. Pela excelência do argumento à realização, com unanimidade, as juradas selecionam “Piccolo corpo” como Melhor Filme da 14ª Edição Festa do Cinema Italiano. Damos os parabéns a Laura Samani pela realização da sua primeira longa-metragem.”, disse o júri da Secção Competitiva, constituído por alunas da Universidade Lusófona, nomeadamente, Isabella Giordano, Stella Carneiro e Fernanda Leme.

Passado no início de 1900, o filme observa a fé e a magia a partir da história de Ágata, uma mulher cujo filho nasceu morto. Na tradição católica, uma criança que não respirou uma vez não pode ser batizada e a sua alma será condenada ao Limbo, sem nome e sem paz. É então que Ágata ouve falar de um lugar nas montanhas, onde as crianças podem ser trazidas de volta à vida. Ela inicia aí um trajeto tortuoso que a vai transformar para sempre. “Enquanto estudava o assunto e depois a filmar, questionava sempre se estava a falar de religião ou magia.“, disse Laura Samani ao C7nema no último Festival de Cannes, onde o filme estreou na Semana da Crítica. “A maior diferença entre as duas é que, quando lidas com magia, o que pedes vai acontecer. Na religião pedes, desejas e esperas. Este filme é mais sobre magia que religião. Mais sobre fé. (…) Descobri que estas histórias eram muito comuns a partir de 1700, mas só as conhecem os teólogos e historiadores. Em França há 200 relatos destes. Normalmente eram os homens que faziam esta jornada, pelos perigos que existiam no caminho, mas também porque as mulheres estavam normalmente fisicamente incapazes de fazer o trajeto depois dos partos que tiveram. Pensei então: e se fosse a mãe a fazer esta jornada? A partir do momento que decidi que era a Agata que fazia essa jornada, a teia do enredo montou-se“.
Outro filme premiado na edição 2021 da Festa do Cinema Italiano foi “Sole”, de Carlo Sironi, que venceu o Prémio do Público TVCine. Em “Sole“, a jovem Lena (Sandra Drzymalska) chega grávida da Polónia à Itália, disposta a dar aquele rebento no seu ventre a quem pagar por ele. Um rapaz, Ermanno (Claudio Segaluscio), vai ajudar a mulher a negociar o bebé com os seus tios, fazendo-se passar pelo pai do pequenino que vai nascer. Mas, com a tarefa de cuidar dela, até ao parto, ele acaba criando uma afeição que desafia limites de honra… e do amor. “Existe nesta história algo de bíblico, da Virgem Maria, de José, de Deus. Lena não sabe quem é o pai biológico. Mas essa relação me interessa menos do que uma certa perceção do quão sós as pessoas estão neste mundo e a perceção de que podem existir formas de amor que não exigem nada em troca“, explicou Sironi ao C7nema no Festival de Marraquexe em 2019. “Existe uma questão familiar, no rearranjo dos papéis, e há uma inegável analogia, construída de modo não consciente, com a mitologia católica, por um simbolismo cristão que está no mundo. Eu sou filho de ateus e só descobri quem era Jesus aos 14 anos, quando fiquei curioso para conhecer a figura retratada nas pinturas de Caravaggio“.

