Centrado num debate sobre novos arranjos familiares, com ecos inegáveis dos contos morais de Luc e Jean-Pierre Dardenne na sua mirada realista esturricada, Sole, do romano Carlo Sironi, estendeu um tapete vermelho para a nova (e inquietante) geração de realizadores de Itália na seleção competitiva de 14 longas-metragens do 18º Festival de Marraquexe. O seu filme chegou de Veneza com o troféu Lanterna Mágica no currículo, tendo conquistado ainda o prémio de júri popular em Pingyao, na China, e uma menção honrosa em Mumbai.
“Venho de um país que vive a fazer ‘Ladrões de bicicleta’ de novo, de novo e de novo, como se estivesse preso ao passado“, alfineta Sironi, que executou curtas-metragens aclamadas como Sofia (2008) e Valparaiso (2016). “O meu filme conta uma história que se passa na Itália, mas caberia em qualquer lugar do mundo, podendo ser feita com japoneses, brasileiros…“.
Carlo Sironi
Elogiado pela precisão cirúrgica da sua construção de planos pontuados por uma claustrofobia mais ligada aos afetos do que aos espaços, Sironi narra em Sole uma situação que lembra A Criança, a segunda Palma de Ouro dos Dardenne, conquistada em 2005. É um enredo sobre a venda de um bebé… ou quase isso. “Existe uma questão familiar, no rearranjo dos papéis, e há uma inegável analogia, construída de modo não consciente, com a mitologia católica, por um simbolismo cristão que está no mundo. Eu sou filho de ateus e só descobri quem era Jesus aos 14 anos, quando fiquei curioso para conhecer a figura retratada nas pinturas de Caravaggio“, diz o cineasta, cuja ironia nas palavras se reflete na tela na forma de um alarmismo em relação ao desamparo dos novos tempos.
Em Sole, a jovem Lena (Sandra Drzymalska) chega grávida da Polónia à Itália, disposta a dar aquele rebento no seu ventre a quem pagar por ele. Um rapaz, Ermanno (o ótimo Claudio Segaluscio), vai ajudar a mulher a negociar o bebé com os seus tios, fazendo-se passar pelo pai do pequenino que vai nascer. Mas, com a tarefa de cuidar dela, até o parto, ele acaba criando uma afeição que desafia limites de honra… e de amor.
“Existe nessa história algo de bíblico, de Virgem Maria, de José, de Deus. Lena não sabe quem é o pai biológico. Mas essa relação me interessa menos do que uma certa percepção do quão sós as pessoas estão neste mundo e a perceção de que podem existir formas de amor que não exigem nada em troca“, explicou Sironi ao C7nema, em Marraquexe, engatando uma conversa sobre as responsabilidades de pertencer a uma nação que gerou Fellini, Pasolini, Visconti, Lina Wertmüller e tantos mestres. “Cresci a ver os Dardenne, desde os 15 anos, e Mouchette, de Robert Bresson, é, para mim, o filme dos filmes. Esses realizadores ensinaram-me que forçar empatia com todos as personagens é algo chantagista. Mas, apesar dessas referências, existe a minha herança histórica, de italiano, que pode, algumas vezes, ser uma questão complicada“.
Sironi é parte de uma geração de novíssimos talentos na qual estão cineastas badalados como Laura Bispuri (Figlia mia), Alice Rohrwacher (Lazzaro Felice) e Claudio Giovannese (La Paranza dei Bambini) que reforçam a fé no pretérito perfeito de uma nação que gerou 8 ½ (1963) e La dolce vita (1960). “Ninguém pergunta a um bom cineasta francês dos nossos dias como ele se comporta em relação à Nouvelle Vague, pois o cinema francês saiu da inércia e se reinventou. O nosso, a partir da década de 1980, travou, com raras exceções, que não fazem jus à excelência quantitativa de cineastas autorais que tínhamos no passado“, lamenta Sironi. “Nós tivemos todo o tipo de cinema até o fim dos anos 1970, do neorrealismo a comédias eróticas, passando por géneros diversos. Nos anos 1980, tudo caiu, ficando um outro grande realizador. Mesmo assim, não se via mais um Ettore Scola a surgir. Mas seguimos, mesmo sem evitar as nossas raízes“.

