Já a decorrer desde o dia 9 de outubro, a 27ª edição do Festival Internacional de Cinema Ambiental da Serra da Estrela (CineEco) tem muitos pontos de interesse para se assistir e participar até ao próximo dia 16.
Um dos mais antigos certames em território nacional, o CineEco tem no dia 13 um dos seus momentos mais marcantes desta edição 2021, com a exibição de “I Am Greta” de Nathan Grossman, documentário pessoal sobre a jovem sueca que “fartinha” de palavras ocas e ações nulas de diversos governos teve a ousadia, o desplante, mas essencialmente a coragem de desafiar os líderes mundiais e a sua agenda política.
Mário Jorge Branquinho, responsável pelo certame, não tem dúvidas quanto à importância da sueca para as questões ambientais estarem em primeiro plano na agenda de diversas nações: “O fenómeno Greta Thunberg teve um impacto muito profundo e positivo a nível global. E em Portugal também. Vemos alguns documentários a seguirem a várias lutas dos jovens nas questões ambientais, o que reflete esse envolvimento, esse despertar. É a partir das escolas que esta luta tem de ser travada. São estas gerações em idade escolar que vão sofrer mais com estas alterações climáticas.”
Membro fundador e arte da direção da Green Film Network, uma plataforma de 40 festivais de cinema ambiental, as preocupações do certame português não se reduzem a questões ambientais, aos conteúdos narrativos, mas igualmente existe uma preocupação na linguagem cinematográfica das obras. ”Nestes últimos 26 anos a trajetória tem sido muito positiva nesse aspecto”, diz-nos Branquinho, acrescentando que se nos primeiros anos os filmes eram muito simplistas e minimalistas, “hoje temos obras cinematográficas muito importantes, muito ricas e apelativas.” Isso mesmo consta-te na competição internacional, com filmes como “Ostrov – Lost Island”, que ainda recentemente foi premiado no Visions du Réel. “Last Days at Sea” e “Living Water” são outros exemplos em que linguagem cinematográfica e questões ambientais casam em plena harmonia.
Com temas multidisciplinares como a atual situação climática, colonialismo tóxico, pandemia e outras doenças, a luta de comunidades pela defesa dos ecossistemas regionais, futuro sustentável, poluição marítima, justiça ambiental, entre outras abordagens, a curadoria do festival tenta contemplar vários registos e olhares, embora se sinta nos últimos anos uma tendência para surgirem mais trabalhos sobre os plásticos nos oceanos, tal como há vários anos atrás o perigo nuclear foi uma tendência. “Verifica-se um acentuar da temática dos plásticos nos oceanos inserido nesta temática das alterações climáticas. O colonialismo tóxico é uma temática recorrente e é muito preocupante porque traz sempre com ela a questão dos países ricos e pobres. O tema da Amazónia e das comunidades indígenas têm também surgido com frequência. Temos tido aqui noutros anos pessoas para falar dele e este ano vamos ter a atriz e ativista Christiane Torloni. Há um conjunto de grandes matérias para abordar, como a questão dos agro-alimentares. Uma indústria poderosa e nociva. E outros temas que sobretudo nos impele à mudança”.

Com vários filmes portugueses espalhados pela programação, Branquinho mencionou ao C7nema a evolução que tem constatado na qualidade dos filmes, informando-nos mesmo que um livro que será lançado brevemente sobre o CineEco dedica mesmo um capítulo à produção nacional. “O cinema português tem uma evolução muito positiva nas preocupações sócio-ambientais. Há uma evolução positiva do ponto de vista cinematográfico e não só ativista. Isso é muito visível nos dias de hoje.Por exemplo, o ‘Hálito Azul’ do Rodrigo Areias é um filme belíssimo com uma carga ambiental bastante grande.”
O evento encerra dia 16 com a exibição de “La Croisade“, projeto do realizador e ator Louis Garrel, que integrou o Festival de Cannes este ano. Nele é retratada a história de Abel (Louis Garrel) e Marianne (Laetitia Casta), um casal que descobre que o seu filho de 13 anos vende secretamente bens preciosos para financiar um projeto ambiental ambicioso. “É um filme sobre as crianças da geração Greta Thunberg”, explicou-nos Garrel em entrevista em Cannes, acrescentando que estes miúdos não “”se limitam ao protesto, mas a um discurso construtivo”. “Os miúdos de hoje como a Greta já não se dizem ecológicos de forma gentil. No nosso tempo nós não dizíamos: ‘as tuas ações afetam-nos. O habitat, a Terra as pessoas’. O problema muitas vezes é que os defensores da causa ecológica eram vistos como simpáticos, que plantam tomates, consomem produtos biológicos, etc. Esta nova geração não, ela percebeu que existem 15 mil cientistas que dizem que temos um problema, como no Canadá onde encontramos temperaturas como 50º C. Eles querem um Plano Marshall para combater a emergência climática. Não querem passar da quinta mudança para a quarta, querem travar. Acho isso genial. Estamos perante algo diferente, uma outra coisa além do tradicional comunismo ou outra fação política”.

