“Um por todos e todos por um” é um bordão da literatura que se converteu em set piece no cinema. O termo em itálico é uma referência a um exercício metonímico a partir do qual um fragmento de um filme se converte no signo da sua permanência (e pertinência) no imaginário popular. Quando Uma Thurman e John Travolta se sacodem num twist ao som de “Never Can Tell”, toda a narrativa de “Pulp Fiction” (Palma de Ouro de 1994) se condensa na memória do espectador. Mas há usos dessa técnica em forma de palavra, vide o “I’ll be back” do Terminator Schwarzenegger ou “O maior truque do Diabo foi fazer acreditar que ele não existe”, de “Usual Suspects” (1995). O livro “As Melhores Frases do Cinema”, de Mariza Gualano, condensa todo esse saber, e dá ênfase às múltiplas encarnações que a frase do início deste texto, bradada por Athos, Porthos e Aramis, teve os ecrãs. Há uma mais recente, que segue a reverberar.

Desde as suas primeiras projeções públicas, em abril, a nova adaptação audiovisual de “Les Trois Mousquetaires”, pérola literária publicada em 1844 por Alexandre Dumas (1802-1870), já vendeu 3.337.706 bilhetes em França, fatiando a trama original em duas longas-metragens. A sua bilheteria mundial está estimada em 31 milhões de dólares. Os números supracitados, que levaram os distribuidores e exibidores (sobretudo os francófonos) aos sorrisos, correspondem só à primeira parte do díptico. Um díptico construído com arrojo formal, domínio espartano das sequências de luta e nenhuma extravagância por Martin Bourboulon (de “Eiffel”). O tomo 1, “D’Artagnan”, é uma narrativa de introdução de um jovem aspirante a soldado do rei e a sua amizade com um trio de guerreiros já consagrados, ao mesmo tempo que funciona – e bem – na ambientação de um enredo conspiratório contra o Rei Louis XIII, vivido por um Louis Garrel na plenitude de seu ferramental cénico. Para as novas gerações, alfabetizadas na cartilha da ação via “John Wick”, trata-se de um eletrizante exercício dos códigos da ficção capa & espada, pautado pelo ethos do já citado “Um por todos! Todos por um!”.

Um atormentado Athos é vivido por um Vincent Cassel em estado de graça. É um achado também a figura pós-moderna de Porthos, encarnada com humor por Pio Marmaï. É um Porthos bissexual, adequando o enredo de Dumas aos pleitos de inclusão da contemporaneidade. Igualmente inovadora é a maneira como Romain Duris consegue fazer de Aramis um Casanova não machista.

No guião cheio de adrenalina de Matthieu Delaporte e Alexandre de La Patellière, Eva Green entra em cena soberba como Milady, uma agente do Cardeal Richelieu (Eric Ruf) para desestabilizar o reinado de Louis XIII. Numa das suas artimanhas, ela falha em matar o quase mosqueteiro D’Artagnan, a quem o ator François Civil vai emprestar carisma, inteligência e retidão. O herói será a pedra nos sapatos dos múltiplos conspiradores que querem derrubar o status quo da França muito bem recriada no uso do chiaroscuro e na depuração de tons ocres, terrígenos, na fotografia de Nicolas Bolduc. O agil ritmo de montagem não impede que o espectador possa degustar os detalhes dessa sagaz composição de luz de Bolduc.

Parece não haver nada de novo na frente do deslizamento das páginas (e palavras) de Dumas para o cinema. Mas, nestes tempos de John Wick, transformar uma narrativa swashbuckler (termo para espadachim) em algo dinâmico, sem ser um videojogo de cortes abruptos, soa como um achado. E é.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
les-trois-mousquetaires-dartagnan-capa-espada-e-adrenalinaNestes tempos de John Wick, transformar uma narrativa swashbuckler (termo para espadachim) em algo dinâmico, sem ser um videojogo de cortes abruptos, soa como um achado. E é.