Apoiado numa montagem capaz de ser ao mesmo tempo vertiginosa e fluída (quiçá a melhor edição do ano no documentário brasileiro), “Antena da Raça” revisita o mito do Ogum do cinema das Américas, o realizador baiano Glauber Rocha (1939-1981), por uma das (muitas) matizes que fizeram de seu pensamento um paradoxo de genialidades: a televisão.
Soa exótico que o mais ferrenho inimigo do colonialismo cultural, em especial o americano, tenha apostado no pequeno ecrã, no momento em que trabalhava na sua derradeira longa-metragem: “A Idade da Terra” (1980). Mas há nitroglicerina das mais puras no programa “Abertura”, apresentado pelo cineasta na TV Tupi, em 1979. E, a julgar pelos fragmentos dele, reunidos no .doc dirigido por Paloma Rocha e Luís Abramo, chancelado com o selo do Festival de Cannes, a passagem do diretor de “Terra em Transe” (1967) pela linguagem televisiva foi das mais estratégicas. Numa miscelânea entre arquivos e registos do presente, Paloma (filha mais velha e preservadora da obra de Glauber) e Abramo (filho do realizador Fernando Coni Campos, autor dos filmes de culto “Ladrões de Cinema” e “O Mágico e o Delegado”) fazem um paralelo entre as ruínas da ditadura militar no fim dos anos 1980 e as instabilidades políticas da Era Bolsonaro.
Existem, entre os momentos de maior comoção de um filme que nos leva do humor à fúria, doces encontros com dois amigos e fãs de Glauber: o cantor e compositor Caetano Veloso e o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa. Ambos ajudam-nos a entender a importância que a Rocha do Cinema Novo teve para a estética do Tropicalismo, o movimento contracultural que mesclou cores pop à brasilidade mais profunda. “Antena…” já tem exibição assegurada no festival Olhar de Cinema, agendado de 7 a 15 de outubro, em Curitiba. Nesta entrevista, Paloma e Abramo falam ao C7nema sobre o legado de um transgressor que não deixou transístor algum desligado.
A que modelo narrativo de televisão “Antena da Raça” se refere e de que maneira essa TV reflete um Brasil assolado pela ditadura? O quanto esse Brasil se aproxima do que vivemos?
Paloma Rocha: É complexo adequar o Glauber a qualquer modelo vigente. No “Abertura”, ele virou o antimodelo quando saiu para as ruas, nos estertores da ditadura, descabelado, de camisa aberta, rompendo com as narrativas tradicionais da entrevista, tirando as intermediações de poder onde o entrevistador traz em si um modelo colonizador aos entrevistados, transformando o povo e “o mito da burguesia”, como ele mesmo define, nos protagonistas, Brizola e Severino, um homem negro da favela e um nordestino auxiliar da TV Tupi. Como disse (o diretor e videoartista) Tadeu Jungle, aquilo trouxe um novo ar, um espaço, que todos buscavam naquele tempo. O outro aspecto é o de usar este espaço não para reproduzir ideias, mas criar um “discurso manifesto”, provocando uma reflexão sobre o Brasil político e cultural da época. Esse Brasil de hoje se afasta vertiginosamente daquele, nutrido por um sonho de liberdade que a democracia anunciava.
Luis Abramo: Nosso filme parte do programa “Abertura” para propor um diálogo das ideias de Glauber Rocha com o Brasil contemporâneo, numa reflexão de um país que ensaiava a saída de um regime autoritário para um Brasil que aventura o seu destino em um governo que se autointitula de extrema direita. Glauber fala da fome, da violência e do abandono e cobra as reformas estruturais. Ele alerta em não cairmos em erros políticos herdados de outras gerações. Eu vejo no “Antena da Raça” um filme para estimular o debate de ideias, resgatar e atualizar os sonhos e decepções com o rumo do nosso país.
O que a televisão, nos anos 1960 e 70, representava para Glauber como objeto mediático?
Paloma Rocha: Não sei o que responder pelo meu pai, mas o que entendo é que qualquer objeto mediático para o Glauber é um lugar de arte, de manifesto, de coragem e de lucidez Particularmente, acho que ele quis trazer o conceito do Cinema Novo para a TV, como experiência. Glauber tinha urgência, precisava registar suas ideias para nos deixar este legado de afirmar a potência criativa do homem por meio de um processo de autodescolonização por um lado e por um processo revolucionário por outro. Não me lembro dele vendo TV.
Luis Abramo: Acho que essa pergunta a Paloma tem muito mais propriedade para responder. Eu só acredito que, apesar dos tempos democráticos por que passamos, a televisão brasileira, que trabalha numa rede que envolve todo o país, é responsável, de certa forma, por um imaginário manipulado e, talvez, também por isso, estejamos sofrendo as consequências nesse turbulento momento político por que estamos passando.
Como fluiu a parceria de vocês na concepção da narrativa?
Paloma Rocha: Luís é como um irmão. Temos a mesma idade, temos histórias semelhantes dentro do cinema, e ele é, sobretudo, um homem de cinema. Nossas angústias de entender o que acontecia no Brasil pré-eleitoral de Bolsonaro já nos tinha colocado nas ruas. Luís é um fotografo leve. Nossa equipe era a nossa dupla mais alguns colaboradores locais. Desta maneira, de mochila nas costas, viajamos para Curitiba, Maranhão, estivemos com os “guardiões da floresta” e fizemos ainda um filme que antecede o “Antena da Raça”. Chama-se “Tentehar – Arquitetura do Sensível”. Queremos entender o que move o ser humano e onde habita a sua resistência.
Luis Abramo: Por sermos da mesma geração e, de certa forma, termos histórias próximas, a Paloma e eu transformamos as nossas angústias em uma forma despojada de filmar, unindo o diretor, o fotógrafo e o personagem em uma mesma unidade onde erros e imprecisões fazem parte de uma estratégia, onde podemos estar vivendo todos a mesma experiência. Na nossa jornada, conversamos muito sobre como romper conceitos e nos aproximarmos das linguagem de Glauber no programa “Abertura”. Para fechar os conceitos dos filmes, contamos com a parceria do montador Alexandre Gwaz, grande conhecedor da obra do Glauber e que, com grande mestria e sensibilidade, costurou os tempos e somou muito para as propostas dos filmes.
Em que pé está a preservação e a documentação da obra de Glauber? Que novas investigações documentais você planeja acerca da obra dele?
Paloma: Está preservada digitalizada e os originais estão na Cinemateca Brasileira. As cópias estão comigo e em outros três lugares seguros. No momento, trabalho em uma proposta de uma plataforma digital para dar acesso ao acervo documental, para que outras pessoas possam pesquisar. Também está em curso o restauro do negativo do “Deus e o Diabo na Terra do Sol” em 4K, patrocinado por um investidor de Brasília.
Em que pé está a preservação e a documentação da obra do Fernando Coni Campos? Que novas investigações documentais você planeja acerca da obra dele?
Luis Abramo: Os negativos dos filmes do Fernando estão na Cinemateca Brasileira. Há apenas um filme com o negativo restaurado. O primeiro filme dele não conseguimos salvar. O Fernando está sendo homenageado na Mostra Internacional de São Paulo e estamos pensando em um projeto multimédia com os seus filmes, textos, poesias e desenhos para trazer ao público um pouco mais do seu cinema e sua personalidade.

