Matteo Rovere visita a fundação de Roma no intenso “Il Primo Re”

(Fotos: Divulgação)

Depois de Un gioco da ragazze (2008) e Gli sfiorati (2011), Matteo Rovere voltou ao tema da juventude com Velozes como o Vento, um dos filmes de maior sucesso em Itália em 2016. E se nestes primeiros três filmes lidou com temas como anorexia, incesto e toxicodependência, nesta sua quarta-longa metragem, Il primo re, Rovere embarca numa história famosa, a dos irmãos Rómulo e Remo, fundadores da cidade de Roma.

Drama musculado que aposta no realismo, o filme assume-se como um estudo da relação dos dois irmãos, olhando principalmente na relação de ambos com os deuses, a qual os vai levar a campos opostos de pensamento.

O c7nema teve o prazer de entrevistar Matteo Rovere na sua passagem por Lisboa, ontem, dia 7 de abril. O realizador e produtor explicou-nos um pouco de como foi filmar este épico de grande orçamento [10 milhões de euros], algumas opções estilísticas, o seu futuro e como vê o cinema e as plataformas de streaming a coexistirem.

Aqui ficam as suas palavras:

O que é que o levou a esta história, as origens de Roma e do Império Romano?

O meu filme anterior, o Velozes como Vento, era um filme de ação, mas tinha um grande elemento de emoção, o conto de uma família, de um irmão e irmã, etc. Aqui faço um tipo de filme que não é muito comum em Itália, é raro e quis contar algo que fosse importante internacionalmente, a origem de Roma, e ao mesmo tempo – [mais uma vez] – uma história afetiva de irmãos.

O seu filme anterior teve bastante sucesso, isso ajudou-o a financiar este que era consideravelmente mais caro?

Sim, o Velozes como o Vento fez sucesso em Itália e no mundo [comprado para mais de 40 territórios], não só no público mas também junto da crítica, tendo ganho os Donatellos [6 prémios do cinema italiano]. Isso ajudou-me a financiar este filme e a encontrar coprodutores internacionais para este trabalho consideravelmente mais caro.

Relativamente a certas opções pessoais, como o uso de luz natural e o recorrer a uma língua arcaíca, o proto-latim. Porque teve essas opções e que dificuldades isso trouxe para a produção?

A língua é uma forma de ação e de transportar o espectador para muitos anos antes de Cristo. No Velozes como o Vento usei um dialeto local, o Romagnol, e aqui procurei o mesmo realismo. Tratando-se de uma história verdadeira, a língua era um componente essencial.

O trabalho da luz natural nasce muito do diretor de fotografia, o Daniele Ciprì, que também é um realizador importante em Itália. Ele é um maestro da luz no cinema (…) a luz é natural, mas existem tantos elementos para trabalhar essa luz, como nas cenas de fumo e fogo, a forma como o fumo percorre a cena, a forma de direcionar a luz; na verdade é tudo artificial.

Como foi o processo de escolha dos atores, como o Alessandro Borghi, e que lhes disse para preencherem aquelas personagens ?

De um lado tínhamos uma grande dificuldade, do outro uma grande oportunidade. Podemos usar atores que em Itália não se usam mais, como alguns muito pouco famosos. Eu precisava de rostos muito particulares, difíceis de encontrar no cinema contemporâneo. Já o Alessandro Borghi é uma estrela em Itália e eu pedi-lhe algumas coisas, como emagrecer, pois eu queria que ele transportasse o espectador para este período arcaico. Precisava de corpos que se adaptassem a este período. Passados esses três meses de filmagens de cenas muito difíceis, muitas vezes no meio da água, com muito frio, o físico fisico dos atores chegou ao que eu precisava.

E o processo de trabalho com esses atores. É um realizador que dá espaço ou faz eles seguirem estritamente o guião?

Sendo um argumento escrito em italiano e traduzido para latim arcaico, era difícil improvisar (risos). De maneira muito rigorosa respeitamos o guião. A construção sintática do latim é diferente do italiano e certamente também do português. O pensamento da língua arcaica é diverso, por exemplo: a morte, a divindade, o deus surge na língua arcaica de vários modos. A tradução do latim é um trabalho muito complexo e fizemos questão que todos os atores, mesmo os com só uma fala, aprendessem este proto-latim para perceberem tudo o que os outros diziam.

E está contente com a reação do público ao filme, não só em Itália, mas no resto do mundo?

Sim, muito feliz mas também estava muito receoso, devido ao realismo, à língua. O público em Itália reagiu muito bem. Neste momento é o terceiro filme italiano com melhores resultados este ano, atrás apenas de duas daquelas comédias para massas.

Sendo realizador e produtor, como vê o cinema italiano agora e que impacto têm as novas plataformas de streaming nele?

É difícil dizer. Eu sou um grande amante do grande ecrã e não me agrada tanto ver filmes no computador, tablet ou telemóvel. Curiosamente, este filme estreou em Itália com uma frase escrita: “Só nos cinemas”. Quando a Netflix lançou o Roma, tinha na publicidade: “Nos cinemas e na Netflix”. Nós tínhamos: “Só nos cinemas”. Isso caiu bem nos donos dos cinemas.

As mudanças nesta área são muito velozes, muito repentinas. É um grande problema, especialmente para a geração com menos de 25 anos, que não vê os filmes no cinema e começa logo a ver no pequeno ecrã. Existe uma dissociação dos dois meios, mas é importante manter uma ideia de coexistência entre ambos.

Neste momento, na Europa, assistimos a diversas políticas ligadas a isto. A França tem uma política muito protecionista dos cinemas, a Alemanha é mais permeável, a Itália está no meio. É uma fase em que a tecnologia, os telémoveis, etc, evoluem mais rapidamente que as pessoas, as legislações, etc. É importante, antes que essas plataformas tomem controlo de tudo, que exista uma reflexão sobre como gerir tudo isto.

Que novos projetos tem em mente, quer como realizador, quer como produtor?

Como produtor tenho em Itália um filme, chamado Il campione, com o Stefano Accorsi; é uma primeira obra, um coming-of-age no mundo do Calcio, do futebol em Itália; tenho outro, também como produtor, sobre o Gabriele d’Annunzio, poeta e dramaturgo italiano, que é protagonizado pelo Sergio Castellitto, que será lançado no outono; como realizador e produtor, início em junho as filmagens da série Primo Re, da qual assinarei os dois primeiros episódios sobre a fundação de Roma. É um projeto da Sky, da ITV e da Cattleya.

 

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