Sentámo-nos com o Gato das Botas, perdão, António Banderas, durante o Festival de San Sebastián. E ficámos a saber um pouco mais sobre o processo de uma personagem de animação baseada num ator.
O António esteve envolvido neste filme desde o início. Podes esclarecer como decorreu todo o processo?
Depois de receber o guião, o estúdio deu-nos a possibilidade de contribuir para a construção da personagem. Entretanto, estive em Silicon Valley e San José, diante de centenas de pessoas — animadores e guionistas — onde discutimos todo o projeto, cena por cena. Posteriormente, recebemos o guião com todas as notas, para uma outra discussão. Entretanto, iniciam-se as sessões, onde a voz é o primeiro elemento. Fazem-se as primeiras leituras e depois improvisa-se, filmam-se as leituras, já com alguns adereços. E tudo isso são elementos a usar pelos animadores.
Quando fez a locução, existe já alguma interação entre atores? Por exemplo, entre si e a Salma Hayek?
Não, as locuções são feitas individualmente. Apesar de, neste caso particular, eu ter pedido ao Jeffrey (Katzenberg) para ter algumas sessões com a Salma. E ele concordou.
Por uma questão de química?
Isso. Em Desperado conseguimos isso numa luta — mas uma luta com muita sedução. Sobretudo porque ela é muito expressiva e muito mexicana (risos)… Mas a razão principal é que se trata de um longo processo e, normalmente, os atores têm agendas diferentes.
Como foi no seu caso?
Eu gravei este Gato em Espanha, em Los Angeles, em Paris, em Spokane, no estado de Washington.
Até que ponto a sua personalidade ficou vincada no Gato e até que ponto o António não se ri de si próprio?
É claro que me deu a oportunidade de rir de mim próprio e, em níveis diferentes, de piscar o olho a outras personagens. Sem dúvida. Digamos que, depois de 35 anos de trabalho e tantos filmes, é algo muito saudável (risos). Ele é muito atrevido e naquilo que fez em Shrek. É uma personagem que pisca o olho ao público adulto. No fundo, é a possibilidade de ir além dos parâmetros muito rígidos da Disney.
É interessante perceber que o António não sabia inglês quando chegou aos EUA e agora está a dar a voz a uma personagem…
A palavra que procura é paradoxo (risos). Quando fiz Os Reis do Mambo (The Mambo Kings) não sabia uma palavra de inglês e não percebia o que me dizia o realizador. Apenas repetia as palavras que me dizia o instrutor de dialeto. Mas as palavras têm um significado cultural em países diferentes. Talvez isso me tenha também dado alguma liberdade para comunicar. Até porque o meu sotaque hispânico acabou por fazer parte de mim, das minhas personagens.
É verdade que faz quatro versões diferentes de O Gato das Botas? Tentou aproximações diferentes?
Não. Faz sentido porque eu criei a personagem já com sotaque, em inglês. Quando faço a versão italiana, incluo também o sotaque espanhol. O que faço na versão espanhola — faço uma para Espanha e outra para a América do Sul — é separar os idiomas. Tem mais a ver com o tipo de humor e de expressões idiomáticas. E, sabe, estive quase, quase para fazer a dobragem em japonês…
A sério?!
Sim, até porque o sotaque espanhol tem algumas nuances que se parecem com o sabor do japonês. Era tudo uma questão de tempo… Mas acabei por não fazer.
Um dos elementos de comédia é o facto de o gato ser tão pequeno…
Claro, pois um dos elementos da comédia é o timing, mas também o contraste. Quando algo não é suposto ser. Assim temos esta personagem tão pequena, mas com uma voz sensual e profunda… (diz, imitando a voz de Puss)
Foi para si difícil saltar da personagem de Almodóvar para este gato?
Eu não fiz sessões para o Puss durante A Pele que Habito (La piel que habito). Por acaso. Mas, normalmente, não tenho dificuldade em saltar de um tipo de personagem para outra totalmente diferente.
O que sucede nos países em que a sua voz é dobrada por outro ator?
O Jeffrey impôs que o meu nome e o da Salma aparecessem, pois as personagens e as nuances foram, em grande parte, criadas por nós. No fundo, foi um trabalho de ator.

