Se perguntarmos a muitos espectadores de cinema quem é Ben Burtt, alguns não o saberão apontar como um dos mestres da sonoplastia. Mas se dissermos que é o responsável pelo bip do R2-D2, a língua falada por Chewbacca, o swoosh do sabre de luz e a respiração pesada e mecânica de Darth Vader, então todos aqueles que são fãs de “Star Wars” começam lentamente a revirar os seus olhos e a prestar toda a atenção.
Homenageado no Festival de Locarno com o Vision Award Ticinomoda, prémio dedicado aos criadores cujo trabalho alargou os horizontes do cinema, Ben Burtt tornou-se um dos nomes mais respeitados da sonoplastia. E não foi apenas pelo trabalho na saga “Star Wars” de George Lucas, mas igualmente na franquia “Indiana Jones” ou “Wall-E”, além de “E.T. O Extraterrestre”, outro clássico absoluto de Steven Spielberg. Para se ter ideia, quando E.T. levanta o seu dedo luminoso e profere a lendária frase “E.T. phone home”, essa voz rouca que ouvimos era a de um fumador inveterado que Ben Burtt descobriu num café. Noutro exemplo, a voz do famoso Chewbacca ganhou vida pela combinação de trechos de sons feitos por ursos, morsas, leões, texugos e outros animais.
A propósito da entrega do prémio em Locarno, estivemos à conversa com este vencedor de 4 Óscares que também já realizou diversos projetos, desde voos espaciais e viagens à estação espacial (Blue Planet em 1990 e Destiny in Space em 1994), até ao documentário sobre o crime na América (The American Gangster, 1992), além de “Special Effects: Anything Can Happen” (1996). Fazendo o percurso desde a infância até à chegada a “Star Wars” e “Indiana Jones”, Burtt falou-nos ainda das transições tecnológicas e da “ameaça” que a Inteligência Artificial (IA) coloca a todos os jovens que sonham construir uma carreira no arranjo sonoro dos filmes.

Não é assim muito comum vermos alguém que trabalhou no som durante a sua vida ser homenageado com um prémio de carreira num festival de cinema. Como se sente em relação a isso?
Nunca ouvi falar de alguém ligado ao som, que normalmente é tratado hierarquicamente no cinema nos degraus do fundo da indústria, ser colocado no topo da linha de consagração. É verdade que ao longo da minha vida sempre recebi muita atenção pelo meu trabalho, mas na Europa isso nunca tinha acontecido. Estou muito impressionado e agradecido.
Sente que no cinema dá-se pouca atenção ao trabalho sonoro, em comparação com a imagem ou o guião?
Certamente isso já me passou pela cabeça em algum período da minha vida, mas creio que isso acontece porque o meu trabalho é invisível. As pessoas, quando assistem a um filme, seguem a história e não se preocupam com a montagem de som. Para eles, o som é o som. Está ali e nem é trabalhado. Mesmo que seja uma nave espacial (risos). A ideia de estarmos nos bastidores a criar magia joga a favor de quem trabalha no som, por isso não vou iniciar uma campanha para nos darem mais atenção, nem acho que a devemos ter.
Sim, mas falou do som estar, supostamente, nos degraus mais baixos da consagração dentro da própria indústria, abaixo dos produtores, realizadores e atores…
Sim, na verdade não me importava que nos dessem mais atenção e honras. Talvez seja por eu ter atraído tanta atenção desde o lançamento do “Star Wars” que não sinto essa necessidade. Mas certamente outros sentem.
Como começou esta paixão pelo som que transformou a sua vida e lhe proporcionou uma carreira? Foi paixão pelo cinema?
Sempre tive um grande amor pela música, principalmente clássica. A minha mãe punha música a tocar e eu criava histórias. Quando tinha uns seis anos fiquei maravilhado quando vi o “Fantasia”. No início desse filme surgem cores abstratas e formas a mexerem-se com a música. Para mim era magia, imagem e som a criarem algo tão belo. Esse filme criou o meu interesse em ver cinema. Em criança, via principalmente na TV, mas ocasionalmente íamos às salas. Gostava mesmo de cinema.
Uma vez o meu pai deu-me um gravador que trouxe da universidade, num período em que estava doente e não podia ir à escola. Adorava gravar sons. Gravava-me a mim, à minha irmã, etc. Descobri todos os truques da máquina e comecei a gravar os filmes que davam na TV. E depois ouvia as gravações, vezes sem conta. Sem me aperceber, estava a aprender como o som se conectava às ilusões visuais. Isso fascinava-me.
Sentia-se como um mágico?
Amava isso, mas nunca ponderei seguir isso como carreira ou fazer disso um emprego. Na minha cabeça ia ser um cientista como o meu pai.
Alguma vez ele o pressionou a não seguir essa carreira?
É capaz de ter havido alguma pressão nobre, com muito amor á mistura. Mantive esta paixão como um hobbie, fazendo brincadeiras no quintal com os amigos. Usávamos câmaras Super 8 e 16 mm, quando consegui pagar por ela. Era um escape da vida real. Os filmes eram um escape, era um ser levado e ficar num mundo imaginário. Mas não era apenas o som que me atraía, eram os filmes em geral.
Quando estava na faculdade, usava o verão para fazer os meus pequenos projetos. Esses projetos chamaram a atenção das pessoas. Ganhei concursos e prémios onde estavam no júri pessoas como a Pauline Kael, a famosa crítica de cinema. Ela dizia-me: “Tens de ir para a cidade de Nova Iorque, trabalhar no cinema. Deixa a faculdade.”

Podemos dizer que a Pauline mudou a sua vida?
Não tinha a certeza se queria fazer isso. E não queria, de todo, largar a faculdade. Mais tarde conheci o Arthur C. Clarke, o escritor de ficção científica. Ele veio ao Departamento de Física da universidade onde eu estava a estudar, apenas para falar de ciência e satélites de comunicação. Como sabia que ele tinha trabalhado no “2001- Odisseia no Espaço”, que eu adorava, e era escritor, tive a oportunidade de falar com ele, pois fui o seu guia pelo campus universitário. Ele perdeu algum tempo a falar comigo sobre alguns truques do filme. Foi nesse momento que entendi que estava perante um cientista que era bem sucedido no reino da ficção científica. Ou seja, era sucedido em dois mundos diferentes. Foi aí que percebi que talvez existisse uma maneira de eu conjugar os dois mundos. Combinar o meu interesse em cinema com o da ciência e construir algo a partir daí. Por isso, quando acabei a minha licenciatura em Física, comecei a ter aulas de cinema, em part time, e consegui um trabalho a desenvolver anúncios publicitários. Ganhei experiência e fiz um pequeno filme que me fez ganhar algum dinheiro. Juntamente com uma bolsa, consegui com esse dinheiro ir para Los Angeles estudar na USC Cinematic Arts. Como era da Costa Leste, da zona norte do estado de Nova Iorque, pensava que ia estar lá um ou dois anos e tentar a minha sorte. Se corresse mal, voltava para casa e seria cientista. Mas foi lá que fui arrastado para o sistema.
E como se deu essa entrada na indústria?
Enquanto estava na USC era um dos poucos alunos com interesse no som. Consegui um emprego no Departamento de Som, onde ajudava outros alunos nos seus filmes. Além disso, havia pequenos trabalhos fora do campus, em produções independentes que precisavam de montadores. Como éramos miúdos e bons, contratavam pessoas com a nossa idade. Saía-lhes barato (risos).
Comecei a colaborar em trailers e a criar sons para um par de filmes do Roger Corman. Com isso fiquei conhecido na universidade como o miúdo que gostava do som (risos). Por isso, quando o George Lucas mandou o seu produtor ao campus à procura de alguém dessa área, deu de caras comigo. Mal acabei a licenciatura fui trabalhar no “Star Wars”.
A Lucasfilm deu-me um ótimo gravador, um Nagra suíço. Com ele comecei a gravar, colecionar e montar sons, um ano antes do filme começar as rodagens. O George Lucas queria algo especial, deu-me o guião e a primeira coisa que me pediu foi para trabalhar nos Wookiees, ou seja, no Chewbacca, pois os seus sons e voz ia afetar o seu comportamento nos sets. Era preciso pensar como o seu som ia encaixar na figura. A verdade é que olhei para o guião e, além dos Wookiees, encontrei centenas de coisas interessantes, desde sabres de luz a naves, e claro o Darth Vader. Perguntei a ele se queria sons para aquilo tudo. Ele respondeu: “Sim, vai trabalhar nisso”. Por isso, enquanto trabalhava no Chewbacca, já estava a colecionar sons de motores, aviões e todo o tipo de máquinas estranhas para outros elementos do filme.
Alguma vez pensou que “Star Wars” se tornaria algo tão grande como hoje o é?
Nunca. Ninguém pensava naquela altura que iria ganhar esta dimensão. A maioria das pessoas que trabalhou, especialmente no trabalho de câmaras, efeitos visuais, etc, no primeiro filme, era muito jovem. Ou tinham acabado de saír da escola, ou tinham trabalhado em pequenas produções independentes. Éramos todos muito inexperientes. Éramos jovens e tínhamos muitas ideias que o George Lucas apoiou ao arranjar dinheiro para o filme. Mas tudo o que pensávamos na altura era ver a transformação do guião em filme e poder mostrar isso aos nossos amigos (risos). Eu era um grande fã da série Star Trek na TV e o meu pensamento era: talvez com este trabalho em “Star Wars” sejamos convidados para uma das convenções que existiam em torno do “Star Trek” (risos). Naquele tempo, isso era o meu sonho. Tudo o que veio depois com o “Star Wars” foi uma enorme surpresa. Não esperava, 47 anos depois, ainda estar a falar disso. (risos)
Sim, transformou-se numa saga enorme, com prequelas, sequelas, spin offs no cinema e TV. E os seus sons imortalizaram-se…
Sim, os sons ainda andam por aí com a marca. Se crias um produto que mostra o sabre de luz, o som está lá e leva-te imediatamente ao “Star Wars”. Os sons tornaram-me uma assinatura desse mundo. Onde quer que vá, as pessoas conhecem e replicam os sons. Têm nos seus telefones, nos seus canais do Youtube, em todo o lado.

Como lida com esses fãs, tendo em conta que criou algo que marcou as suas infâncias e adolescências?
É curioso, pois a maioria dos jornalistas que passaram por mim hoje todos pediam uma fotografia porque me ligavam a algo que os marcou na infância e adolescência. É como se tivesse mexido com o seu DNA. Por causa disso, tenho sempre de me lembrar que quando era miúdo também fiquei obcecado com algumas personagens cinematográficas, como o Robin Hood e o Peter Pan. Queria ser eles, usar os seus fatos. Cada geração tem novos fãs, pessoas que têm estas paixões. Eu tenho netos que conheceram todos os sons que criei, mesmo antes de lhes falar sobre o assunto.Um dia, dois dos meus netos vieram ter comigo vestidos de Boba Fett (risos). Claro que entendo todos os que se agarram a estes sons como parte das suas infâncias e adolescência.
E depois de trabalhar com o George Lucas, colaborou com o Steven Spielberg…
Sim, foi outra das rotas da minha carreira. Sabes, curiosamente, de alguma forma, tive mais prazer em trabalhar nos filmes “Indiana Jones”. O mais difícil no “Star Wars” foram sempre as vozes, criar vozes alienígenas ou o discurso das personagens. A audiência é muito crítica em relação aos discursos, pois têm de lhes parecer bem para criar a ilusão. Os filmes “Indiana Jones” não precisavam disso, de vozes especiais, naquilo que chamo os efeitos sonoros ao estilo comics. Além disso, a criança que havia em mim adorava cenas de ação, a aventura e as explosões. Tal como o Lucas, o Spielberg queria uma coleção sonora única e original para os seus filmes. Pensando nos “Salteadores da Arca Perdida”, provavelmente conseguias um conjunto de sons para ele numa das livrarias de sons que já existiam, e que certamente tinham trechos com carros, aviões, lutas e socos. Ele podia ter simplesmente recorrido a isso, poupando imenso tempo. Mas esses sons eram “antigos”, representavam o passado. O que eu quis foi reconhecer a linguagem desses sons, recriá-los, exagerá-los e transformá-los em estéreo de alta qualidade. Para nós que trabalhamos no som, o ”Salteadores da Arca Perdida” foi uma espécie de remake de sons existentes, mas feitos numa nova era, com novas tecnologias.
Por falar em tecnologia, o Ben acompanhou muitas revoluções sonoras no seu percurso. Como lidou com isso?
Sim, as coisas estavam sempre a mudar. Surgiu um mundo digital, com muita coisa ganha no processo, mas também com algumas perdas. A entrada no mundo do áudio digital significou que a qualidade do som já não se degradava. Se ouvires uma cópia da cópia, é igual. Nos tempos analógicos, mal fazíamos uma cópia, a qualidade perdia-se. O som passava por 10 estágios desde a gravação original até à chegada ao cinema. Era muito difícil fazer um controle de qualidade. Perdíamos muito tempo a fazer cópias “perfeitas” e dependiamos muito dos engenheiros de som.
Com o digital, isso mudou e o problema desapareceu. Antigamente, eram salas e salas de gente a trabalhar que agora foram substituídas por um computador. Este tornou-se a ferramenta de um artista. Podes gravar, montar e editar o som, recorrendo apenas a um aplicativo de computador. Se fores talentoso o suficiente, podes fazer todo o filme nele. As coisas mudaram muito. Para os novos cineastas, é realmente um mundo novo.
Por outro lado, hoje em dia as pessoas assistem aos filmes em smartphones e perdem alguma essência e envolvência sonora que a sala de cinema proporciona. Como vê essa mudança?
É uma das desvantagens da mudança dos tempos, ou seja, já só não temos apenas uma ou duas maneiras de exibir um filme. Havia imenso esforço em criar standards nos estúdios e nas salas de cinema. Por exemplo, a Lucasfilm fê-lo com o THX. Havia uma uniformização. O que fazíamos no estúdio teria continuidade quando chegava ao recetor, ou seja, a sala de cinema. Mas esse já não é o nosso mundo. As pessoas já não vão tanto às grandes salas de cinema e veem e ouvem os filmes em diferentes aparelhos, com uma natural perda de qualidade do som.

Podemos dizer que, de certa maneira, a “magia” desapareceu?
Bem, é como dizer a um artista que não pode usar cores vivas nunca mais. Claro que consegues trabalhar sem elas, mas não é a mesma coisa. Ganhas mais cinzentos, nesta analogia. O mesmo acontece quando vês um filme com altifalantes fracos, ou mesmo numa apresentação normal na televisão. As pessoas toleram esse som, pelo menos enquanto conseguem perceber os diálogos. Só quando não conseguem entender as falas é que se chateiam e queixam. Quando ouves com os auriculares, na verdade para essas pessoas o diálogo é que interessa. Para alguém mais interessado no som, sabem que têm de ver o seu filme num sistema melhor. E investem nisso.
Falando ainda de tecnologia e com os avanços em IA, teme que a sua profissão desapareça e seja substituída pelas “máquinas”?
Seria louco se afirmasse que as coisas não vão mudar. Observo muito as coisas e até já fiz algum trabalho experimental com som recorrendo a IA. Creio que vai mudar muita coisa. Muito do que fiz ao longo da minha vida foi juntar sons e improvisá-los num estúdio. Vejo, para já, a IA como uma nova fonte de sonoridades em que, por exemplo, dás instruções e recebe algo de volta, que decides usar ou não, consoante o teu juízo artístico. Mas, por outro lado, podes ter a IA a gerar faixas inteiras para um filme. Provavelmente isso vai acontecer.
Estaremos perante o fim de uma “arte”?
Sim, potencialmente perderemos a conexão a um criador individual, uma assinatura. Podes simplesmente ir buscar o teu áudio a uma coleção gigantesca, ou treinar a IA a apresentar-te os sons com algumas modificações. É um pouco fascinante, mas se eu fosse um jovem a olhar para uma potencial carreira na sonoplastia, teria mais receio. A IA vai mudar muita coisa, como já assistimos na escrita de guiões e na criação de imagens. É algo assustador, mas não sei como a vamos regular.

