Documentário sobre crianças com deficiência visual emociona Locarno

(Fotos: Divulgação)

Já com carreira nos documentários para TV, a realizadora Lidia Duda levou até ao Festival de Locarno, e à Semana da Crítica, “Pisklaski” (Fledglings), uma longa-metragem monocromática que nos leva até um grupo de crianças jovens e cegas (ou com visão parcial) quando elas deixam os cuidados dos seus pais e vão para um internato para aprenderem as habilidades necessárias para enfrentar os desafios que o futuro lhes reserva. 

Magistralmente fotografado por Wojciech Staroń e Zuzanna Zachara-Hassairi, o filme revela um dos nomes mais interessantes a seguir no panorama do documentário europeu, especialmente pela forma segura e madura como captura as emoções e angústias de jovens que terão de lidar com um mundo que não é de todo acessível perante as suas fragilidades.

Foi em Locarno que nos sentámos à mesa com Lidia Duda e falámos sobre este “Fledglings

O que a levou a fazer este filme? Como tudo começou, o que a levou a focar-se neste tema e como foi trabalhar com estas crianças?

Os meus filmes não acontecem com um propósito, apenas acontecem. Quando alguém diz uma coisa, quando algo acontece na minha vida, interesso-me e assim começa tudo. Acima de tudo interesso-me por submundos pelos quais não tenho qualquer tipo de preconceitos e tenho abertura e liberdade para os explorar. Isso aconteceu com o “Fledglings”. Conheci estas crianças de 7 anos e descobri que tinham de ir para este internato, este mundo novo, sem a mãe ou o pai. Inicialmente tinha algum tipo de preconceito, que estes miúdos eram indefesos e fiquei muito interessada na sua resistência, esperança e energia positiva. Ali e sem a família, construíram o seu próprio mundo nesta escola. Além disso, através da minha investigação, descobri que apesar de não terem relações familiares nessa escola, eles desenvolveram as suas próprias relações, criando laços de comunidade. Descobri com isso a importância das relações humanas e como as pessoas podem ajudar e levantar a moral umas das outras.

Por que escolheu fazer o seu documentário a preto e branco?

Lidia Duda em Locarno

É capaz de o surpreender, mas não havia um plano para filmar assim. A verdade é que para as crianças invisuais ou com problemas de visão, a escola está cheia de cores luminosas. Essas cores luminosas, juntas, não funcionam bem, levando o campo de visão a se alargar. Queria o contrário e por isso focamo-nos na vida destas crianças, naquilo que elas “observam” e vivem. Por isso, a escolha do preto e branco foi mesmo no final e permitiu captar a vida emocional destas crianças.

Uma coisa que vemos muito na sua forma de filmar é a escolha permanente de close-ups, de uma câmara agarrada aos miúdos e que omite os adultos. Porque escolheu isso?

Primeiramente, ao fazer um filme tens de encontrar uma visão e um visual para as pessoas e temas que estás a filmar. As crianças, e em especial estas, esta forma de as captar era a melhor forma do seu mundo ser captado. O que a câmara capta é, talvez, o que aquelas crianças são capazes de testemunhar e ver. Simultaneamente, esses close-ups servem para mostrar a interação e relações das crianças num nível emocional. Por isso, quando vemos apenas a mão de um professor, é algo que assumimos é o que as crianças observam. Foi isso que tentei traduzir com estas opções. Crianças cegas controlam o mundo na ponta dos dedos. Mais adiante, começa o espaço além do seu toque. Daí a ideia de frames tão próximas contendo o espaço que os jovens cegos controlam. E nesse espaço, que é domado pelo toque, deslizam as mãos de uma professora, outra criança, e vozes vindas de longe.

Tem uma longa carreira nos documentários para a televisão. O que a levou a fazer este filme para cinema?

O cinema sempre foi a minha paixão e estou sempre com os filmes que faço. Foi muito difícil chegar onde cheguei, e conseguir trabalhar com as pessoas que trabalho, como o Wojciech Staroń. E enquanto trabalho com ele, aprendi também muito. 

Muitos dos meus filmes tiveram uma matriz televisiva, mas os dois últimos já foram para cinema. Por quê? Em primeiro lugar, sou autodidata. Acabei nos Media por acaso. Primeiro foi a publicidade, depois os noticiários, as reportagens e finalmente um documentário. Mas desde o início da minha aventura fiquei fascinado pelas imagens cinematográficas e as suas possibilidades narrativas. E assim, passo a passo, aprendi a realizar.

Em cada filme que faço aprendo muito e procuro forma de como contar as minhas histórias. É um processo contínuo a todo o momento. O que é muito clássico em mim é ir sempre de encontro ao protagonista, de estabelecer uma relação.  O meu ponto forte foi esta capacidade de estabelecer relacionamentos bons e próximos com as personagens. Sou uma boa ouvinte e há em mim uma curiosidade sobre as suas histórias que eles percebem imediatamente.

O próximo projeto que vou fazer vai ainda explorar mais o espaço cinematográfico.

Na Polónia também há cada vez mais fundos a promoverem o cinema documental, o que me ajuda também nesta decisão. O cenário cinematográfico expandiu, em particular o de cinema de arte.

E pode falar um pouco desse novo projeto?

O meu próximo filme, traduzido do polaco, chama-se “Floresta” e é a história de pessoas que fazem o seu próprio espaço, o seu reino, no espaço da fronteira. Três das crianças vivem nesta floresta e as árvores, a natureza, fazem parte da sua vida quotidiana. Uma coisa importante nesta história é que apesar de viverem neste espaço, a política está sempre a bater-lhes à porta. Os refugiados, a guerra da Ucrânia… Estas pessoas têm de tomar estas decisões, ou seja, lutar por aquilo que chamam casa ou fazer parte deste sistema político. Mais uma vez vou focar-me em protagonistas infantis. É um bonito conto de fadas com um pano de fundo negro que vem à superfície. 

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