Panah Panahi pela “Estrada Fora”: “Não tinha qualquer intenção de fazer um filme simbólico ou uma parábola”

Já nos cinemas

(Fotos: Divulgação)

Uma das maiores descobertas do Festival de Cannes em 2020, inserido na Quinzena dos Realizadores, foi o filme estreia de Panah Panahi, filho do aclamado Jafar Panahi.

Passado no Irão e construído em jeito de road trip, um género onde tradicionalmente se retratam viagens no interior de um território e se exploram tensões e questões de identidade pessoais e coletivas, em “Estrada Fora” (Hit the Road) seguimos uma família que tem como destino a fronteira, local onde um dos seus elementos tem como destino a emigração.

Foi em Cannes, em plena praia da Quinzena dos Realizadores, que falamos com o cineasta sobre o seu filme e como a herança de ser filho de quem trouxe-lhe sempre uma pressão extra ao longo da sua vida.

Como definiria a família que vemos em cena? Clássica? Disfuncional? Como se inspirou para a criar?

Acima de tudo para mim era importante não ter nem uma família perfeita, nem uma completamente caótica. É uma família como tantas outras. Posso dizer que cada uma das personagens foi inspirada na minha família e outras que conheço e observo.

Em particular o menino (Rayan Sarlak) é uma força da natureza. Como o encontrou? Foi um casting ou era alguém que conhecia?

É um rapaz que participou numa série muito popular no Irão, mas que não vi. Procurava alguém com caracteristicas muito próprias e mal o encontrei decidi que era ele. Não fizemos audições, nem repetições, ele tinha o que era preciso para a personagem.

Será que este filme simboliza o Irão de hoje em dia e nomeadamente a questão em torno da emigração?

Não tinha qualquer intenção de fazer um filme simbólico ou uma parábola, mas creio que cada cena que vemos é à sua maneira um reflexo de algo que vivemos atualmente. Mais que algo simbólico, queria comunicar e transmitir os meus instintos. Era isso que me interessava de passar para o espectador.

Panah Panahi

Para as cenas da fronteira, como as criou? Houve uma investigação profunda de como as coisas ocorrem nesse local para possibilitar a saída do país?

Sim, fiz uma pesquisa bastante profunda sobre isso, recorrendo a amigos que partiram para outras paragens. Depois peguei no que recolhi e recriei as coisas com as minhas exigências cinemáticas, mantendo-me fiel ao percurso que essas pessoas fazem. Mas cada uma das etapas desse processo é baseada numa investigação muito precisa que incluia depoimentos de quem fez essa passagem.

E nessas exigências cinematográficas, temos a grande tradição dos road movies em cena…

Não sou uma pessoa de géneros, não conheço propriamente os seus códigos, mas era muito importante para mim do ponto de vista cinematográfico que as regras e códigos que respeito façam sentido para mim e para o meu filme.

Outro elemento muito importante no filme é a música. Como a escolheu e qual a sua importância para o filme?

As músicas do meu filme são extremamente populares no Irão e são todas de antes da revolução islâmica. Essa música traz uma nostalgia daqueles tempos. Desde então a nossa cultura tem sido muito controlada por parte das autoridades, as quais impuseram o seu próprio gosto, as suas próprias referências no cinema, na música, em toda a expressão artística. Por isso mesmo não há nenhuma música no filme que tenha sido feita depois da revolução. Queria com aquela nostalgia mostrar uma família num último momento juntos, onde cada um deles vai criar um momento de nostalgia.

E tendo em conta isso e os temas abordados, ponderou se ia ter problemas com as autoridades ao fazer o filme?

No fundo não, já que é algo generalista. Existem detalhes que podiam provocar problemas, como a mulher ter os cabelos soltos, ou estar a fumar, ou até a presença do cão. E, claro, a questão da escolha de músicas criadas antes da revolução islâmica. Mas não existe nada que ataque ou fale diretamente sobre o estado das coisas ou que me mostre contra o regime.

Rayan Sarlak, uma força da natureza aos seis anos

É filho do Jafar Panahi e também já trabalhou com ele, como assistente de realização. Ele é claramente um dos cineastas iranianos mais influentes . Isso não lhe traz uma pressão extra para fazer um filme com uma certa qualidade e uma voz distinta?

A pressão seguiu-me a vida toda e sempre tentei pensar em como criar uma identidade própria, independente do facto de ser filho de quem sou. Depois de começar a trabalhar nas minhas coisas tenho a certeza da sinceridade das minhas imagens, que são muito pessoais, muito minhas. Evidentemente que as influências dele encontram-se no meu cinema e assumo-as (…) Não sei se posso falar de aprendizagem com ele, mas o que é evidente é que existem muitas coisas no trabalho do meu pai que me fazem questionar se as consigo fazer. Não é de todo uma espécie de transmissão verbal, em que falamos das coisas, mas por observação nos seus sets de filmagens, onde frequentemente fico muito impressionado com ele. Veja-se a sua gestão de problemas. Ele é extremamente paciente e isso impressiona-me muito e ensina-me bastante sem serem necessárias palavras.

E em algum momento do desenvolvimento do projeto pediu-lhe conselhos ou ele tentou ajudá-lo?

Nunca lhe mostrei o guião e quando o acabei apenas lhe mostrei uma folha. Mostrei sim a outras pessoas que me deram feedback. Mas sempre que discutimos o assunto e, até durante as filmagens, que ele não acompanhou, sempre que lhe pedia algum tipo de ajuda a atitude dele era de me aconselhar mais como pai do que como cineasta.

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