Audrey Dana e os seus “Homens à Beira de um Ataque de Nervos”

(Fotos: Divulgação)

Homens e mulheres. Masculino e feminino. Estes temas têm percorrido todo o percurso da atriz, “que também é realizadora”, Audrey Dana.

Depois de ter assinado em 2017 “Se Eu Fosse um Homem” (pode ser encontrado na Netflix), onde acompanhava uma mulher divorciada que um dia acorda com marcas corporais masculinas bem distintas, Audrey Dana chega agora aos ecrãs com “Homens à Beira de um Ataque de Nervos”, no qual seguimos 7 homens que atravessam períodos difíceis da vida e decidem integrar um cura emocional por entre paisagens bucólicas sob a liderança de uma terapeuta. 

Foi em janeiro passado que falámos com Audrey Dana sobre esta comédia dramática recheada de atores bem conhecidos do panorama francês, um projeto que sob a capa do escapismo e entretenimento que aborda questões pertinentes sobre identidade e a pressão social sobre o masculino e feminino.

Para começar, queria saber como escolheu o título do filme, que nos remete automaticamente para “Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos” do Pedro Almodóvar?

Tenho um enorme respeito por Almodóvar. Ele é alguém que consagrou a sua carreira a falar das mulheres. E eu sou uma mulher que filma os homens. Quando escolhi um título como “Homens à Beira de Um Ataque de Nervos” sei que toda a gente ia-se lembrar do filme dele e associar as mulheres a este título. O meu filme é para mim uma questão de equilíbrio entre o masculino e feminino, mostrando os homens de uma forma diferente. Através das provações que o filme lhes dedica, procuro mais a sensibilidade feminina neles que o lado mais masculino e duro.

De certa maneira existe um ponto de ligação entre o seu filme anterior “Se Eu Fosse um Homem”e este “Homens à Beira de Um Ataque de Nervos”?

Defendo muito o equilíbrio entre masculino e feminino. Hoje em dia o mundo é dirigido pelos homens, mas este mundo está a morrer. Não defendo que ele deve ser dirigido pelas mulheres, mas sim por homens e mulheres. E é importante esses homens não terem medo em mostrar o seu lado feminino. O Patriarcado, que excluiu as mulheres do poder, é muito, muito duro com os homens. No caso do “Se Eu Fosse um Homem” coloco uma mulher que vai se reconciliar- enquanto mulher – com o seu lado masculino. Aqui, o que faço é mostrar os homens como aqueles que conhecemos: frágeis e sensíveis. Homens que baixam a sua armadura, a sua capa “dura”, e mostram as suas fraquezas. 

Homens à Beira de Um Ataque de Nervos

Mas o que é um homem e uma mulher no mundo atual, em que falamos também de não-binários? Será que podemos continuar a falar de forma cliché nos termos Homem e Mulher?

Infelizmente ainda temos que falar nesses termos, pois o planeta é dirigido por homens. No mundo, 97% dos realizadores são homens. O  meu filho é não-binário. Esta nova geração está mais preparada e encarna melhor o papel de reconciliação. Quando falo de reconciliação menciono as duas partes que se sentem dissociadas. Quando vivermos num mundo onde homens e mulheres partilharem o poder, então poderemos falar de homens e mulheres. E o que é um homem? É uma mulher como as outras. E o que é uma mulher? É um homem como os outros.

O mundo precisava desta nova geração que foge aos códigos instituídos sobre o feminino e o masculino. É uma geração que se emancipa disso, ao não se definir nem num lado nem no outro, levando a sociedade patriarcal a não os conseguir catalogar numa das duas posições que impõe .Acredito muito nesta juventude e sei que vão mesmo mudar as coisas. 

E como foi trabalhar, estar em “palco” e dirigir um elenco tão vasto?

Foi algo que exigiu um trabalho de atleta (risos). Dirigir oito atores que estão a todo o tempo em cena, durante duas horas, sempre a falarem, foi extremamente duro. E o ter de mostrar a tua voz perante um elenco tão extenso, bem… acabava os dias de filmagens e sentia que não tinha mais palavras a dizer. É um pouco como as colónias de férias, em que és o chefe. O que foi magnífico é que o casting, todos eles deram-se bem e entendiam-se uns aos outros. Todos eles sentiram-se amados e respeitados pelos outros. E a partir do momento em que o Thierry Lhermitte chegava a horas, todos os outros chegavam a horas. Todos eles conheciam bem os textos e estavam disponíveis para trabalhar com prazer. 

E é alguém que deixa espaço aos atores nas filmagens ou leva-os a seguirem religiosamente o texto, o guião?

Deixo muito espaço e adoro os acidentes. Este filme deve muito aos atores. Eu deixo sempre a câmara a filmar, nunca digo “corta”. Confio muito na inteligência dos atores

Falando agora do cinema francês, crê que a vitória de “Titane” em Cannes e de “O Acontecimento” em Veneza mostra que na questão de mulheres realizadoras em França estamos no bom caminho?

Se no mundo 97% dos realizadores são homens, em França temos já 20% de realizadoras. Era preciso um olhar feminino e há que continuar.

E no seu futuro vai continuar a analisar homens e mulheres, masculino e feminino? Pondera fazer uma sequela do Se Eu Fosse um Homem”?

Não, o meu próximo filme será sobre a morte. As minhas crenças pessoais não olham para a morte como um fim. Por isso, não percebo porque as pessoas têm tanto medo dela. Porque associamos a morte a algo triste? A morte faz parte da vida e somos a primeira civilização a tentar combater a morte a todo o custo, com médicos, hospitais, etc, mas simultaneamente vamos matando o planeta no processo. O pitch do meu novo filme é curioso: é a história de um hipocondríaco que está convencido que vai morrer antes dos 50 anos, como o seu pai e avô, e vai organizar o seu funeral antes mesmo de falecer. 

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