Escritor e realizador de filmes como “Le Convoyeur”, que recentemente foi refilmado por Hollywood (Wrath of Man) com Jason Statham como protagonista, Eric Besnard regressa às nossas salas com “Delicioso” (Delicieux), um projeto que na sua capa aparenta ser uma história de superação, mas que na verdade funciona como uma reflexão sobre as ideias e a luta de classes existente que conduziram à Revolução Francesa (1789 – 1799).
Em “Delicioso” estamos em 1789, nas vésperas da revolução, e seguimos um Chef, Pierre Manceron, demitido e humilhado pelo seu mestre, o duque de Chamfort. Será ao conhecer uma mulher que deseja aprender a arte culinária ao seu lado que voltará a encontrar a confiança e partir para a libertação da sua condição de servo através da criação do primeiro restaurante moderno.
Foi em janeiro passado que falámos com Eric Besnard sobre o seu filme, que o próprio caracteriza como “eminentemente político”.
Antes de mais, o que o atraiu a filmar sobre o primeiro restaurante nos tempos da Revolução Francesa?
Queria acima de tudo trabalhar sobre o modelo francês e as suas especificidades. Como é o modelo político francês e o que é ser francês? Pegando na Revolução Francesa, incide nessa fase da criação do primeiro restaurante. A maioria das pessoas não fazem ideia que os restaurantes, como os conhecemos, foram criados neste período. Li muito sobre o tema e descobri que a criação dos restaurantes foi uma ideia eminentemente política. Nunca quis fazer um filme sobre gastronomia, cozinha, mas sobre a Revolução Francesa.
Há claramente um cunho político no seu filme. Nas notas de intenções diz mesmo que “a França que lhe interessa é a da Nacional 7.” E que “Paris não é França”. Há aí uma afirmação política…
(risos) Sim, sem dúvida. Este é um filme muito político. É um filme sobre um momento em que um homem de classe social inferior torna-se um artista e cria um movimento reconhecido por todos. Por outro lado, temos gente de todas as classes sociais que se vão reunir nesse mesmo espaço, algo profundamente democrático.
Quando falo da (Estrada) “Nacional 7”, esta é uma estrada que todos circulam no percurso para férias, seja qual for a sua classe social. O que é genial nesta rota é que as pessoas param no caminho para comerem, seja o seu percurso rumo a Portugal, Itália ou qualquer outra região. Tradicionalmente, este percurso é marcado pelos restaurantes que o acompanham. Com o surgimento das autoestradas as coisas deixaram de ser assim.
Além do olhar sobre as classes sociais, temos igualmente um olhar sobre o feminino, neste caso na questão dos Chefs e as mulheres…
Sim, queria inverter uma questão que se fala muito nos dias de hoje. Hoje em dia, a caricatura diz que a mulher é quem lida com a cozinha. No século XVIII a mulher não tinha nem o direito de entrar numa cozinha. Era para mim importante mostrar que, quando se fala em tradição, originalmente o lugar das mulheres não era todo aí. E temos de entender que neste tempo as casas não tinham cozinha, ou seja, uma divisão por si só para isso, só os castelos. A cozinha, como conhecemos hoje em dia nas habitações, é uma criação burguesa do século XIX. Por isso quis que a personagem feminina, que não teve reconhecido o seu lugar na História, fosse a mais complexa, movesse a narrativa e quase todas as suas etapas.
Outros dos elementos que salta à vista no seu filme é o visual. Muitas vezes sentimos que estamos dentro de quadros da época retratada. Como foi a investigação artística a esse período e a colaboração com o diretor de fotografia para chegar ao visual que o seu filme apresenta?
Eu e o meu diretor de fotografia investigámos muito a pintura do século XVIII. Tive duas grandes influências dessa época. Uma foi (Jean-Baptiste-Siméon) Chardin, muito ligado à pintura de género, onde mostrava pessoas a trabalhar e o seu quotidiano. Ele também foi mestre da ideia da natureza morta.
A outra grande influência foram os westerns. Se reparar, o meu filme é um western. Temos um homem humilhado que com a ajuda de uma mulher recupera e prepara o retorno. É uma estrutura de western. A luz do meu filme é a dos westerns. Aquele caminho com a diligência que pára podia vir do “Stagecoach” (Cavalgada Heroica, 1939) ou “Poney Express”(Buffalo Bill, o Indomável,1953).
Falando na luz, como a trabalhou, tendo em conta a época e o visual que pretendia?
O grande prazer em fazer um filme no século XVIII é de não ter de lidar com a iluminação elétrica, pelo menos oficialmente. E mesmo que uses um pouco dela para as filmagens, tens de ter um enorme cuidado na direção dela. Por isso mesmo só tenho uma direção da luz e quando coloco a atriz perto da janela, tudo se torna quase uma pintura de (Johannes) Vermeer. Só há uma direção de luz, não há contraste.
Há uma cena em particular em que o protagonista rouba um beijo à mulher, sendo depois repreendido. Essa cena tem um forte significado, como a desenvolveu?
Fiz um filme há uns anos, “O Sentido do Maravilhoso”, que seguia a mesma lógica. Gosto muito de um filme do Scorsese, “A Idade da Inocência”. É um filme muito erótico, mas o máximo que vemos são duas mãos que se tocam. O não mostrar às vezes é o melhor a fazer e apliquei isso nesse meu filme. Em “O Sentido do Maravilhoso” tínhamos uma história de amor, mas como uma das personagens era autista, eles não podiam se tocar. Toda a tensão que isso criava interessava-me e apliquei aqui. Todo o interesse entre duas pessoas sem que exista contacto físico é algo que me fascina. Aqui uso o ato de cozinhar executado a dois como uma metáfora, como se estivessem a fazer amor.
O Eric escreve os guiões dos seus filmes, mas é também alguém que escreve muitos argumentos que depois são filmados por outros realizadores. É diferente, em termos de pensamento e método, escrever para si e para os outros?
Antigamente era duro. Os meus desejos são mais claros para mim. É como distinguir o artesão do artista. O artesão é o que ama o cinema, os filmes, um cinéfilo que pode fazer uma grande produção para os americanos, mas também uma comédia ou um filme de autor, colaborando com um realizador. É a sua cinefilia que forma o seu trabalho. O segundo, pelo menos é assim que trabalho, põe em questão o que há de si numa história que conta.
E quando faz um guião, por exemplo como o “Le convoyeur”, e depois o vê ter um remake (Wrath of Man/Um Homem Furioso), o que pensa? Viu o remake? O que achou?
É um ótimo exemplo do que falámos. Esse filme veio até mim através do Nicolas Boukhrief, que co-escreveu o filme. Ele estava num momento da vida um pouco furioso e queria fazer um filme de vingança. O que lhe disse que podíamos fazer era algo ao estilo do Paul Schrader, um “Blue Collar”. Assim fizemos um filme político sobre os transportadores de dinheiro, aqueles que não têm muito mas andam sempre rodeados dele. Havia uma dimensão de “Polar” (romance policial) social. Quando os americanos fizeram o remake, temos o Jason Statham como um grande ladrão, etc, mas o sentido político foi-se. Não falo de qualidade cinematográfica, até porque o Guy Ritchie conhece muito bem a sua profissão, mas o filme tornou-se um produto. O que fizeram foi comprar os direitos, retirar-lhe o sentido político, e entregar espetáculo.
E o que podemos esperar de si para o futuro?
Acabei de fazer outro filme e tenho mais um na agenda, se tudo correr bem, para este ano. NO que fiz volta a ter em fundo um tema que me interessa bastante: a identidade do meu país. Que momentos da nossa História definem a modernidade? No “Delicioso” toquei na Revolução Francesa. Agora vou mostrar um evento ocorrido cem anos depois, que, a meu ver, marcou enormemente a conceção do modelo francês que temos atualmente. Quero tentar chegar ao “de onde viemos?“. Nesta sociedade onde tudo é apagado, em que cultura e história são cada vez mais esquecidas, quero recordar as origens.



