Seis anos depois de “Isto Só a Mim!”, a atriz Josiane Balasko e o realizador Eric Lavaine regressam a esse universo com uma sequela, “Olá, É a Mamã!”, a qual tem estreia marcada nas salas de cinema para o próximo dia 17 de fevereiro.
No filme, Balasko volta a interpretar Jacqueline, que agora encontra-se a meio da remodelação do seu apartamento e, felizmente, é obrigada a ir morar por “alguns dias” com a sua filha mais velha, Carole, e com o seu genro, os quais estão em plena terapia para casais. Porém, esses “poucos dias” transformam-se em “alguns meses”, e Jacqueline rapidamente se sente em sua casa, prepara jantares, monopoliza a televisão e reorganiza a cozinha…Mas será isso uma coisa boa para todos?
Conversámos recentemente com Josiane Balasko sobre este filme, sobre a sua (imensa) carreira e a homenagem que a Academia de Cinema de França lhe preparou, juntamente à “trupe Splendid” (Christian Clavier, Thierry Lhermitte, Josiane Balasko, Marie-Anne Chazel, Gérard Jugnot e Michel Blanc), nos Césares.
O que a levou a aceitar protagonizar esta sequela do “Isto Só a Mim!”?
Quando o “Isto Só a Mim!” saiu em França foi um grande sucesso e perguntaram-me logo se aceitaria participar num segundo filme. A mim pareceu-me evidente continuar. Escreveram o guião do “Olá, É a Mamã!” e cá estou.
Mas o que ama na personagem da Jacqueline?
No cinema, não temos o hábito de mostrar mulheres acima dos cinquenta anos com uma vida completa, ou seja, mulheres com vida amorosa e social. Colocar em cena uma personagem assim, que tem uma vida mais harmoniosa que a filha, a viver com foi muito curioso.
Numa conversa que tive com a Miou Miou há dois anos, ela queixava-se que hoje em dia só lhe ofereciam o papel de avozinha nos filmes. É importante sair desse lugar comum com este papel?
Exatamente, é isso que é importante no filme. Se fosse um homem de 60 anos com aquela vida, ninguém questionava. Mas nas mulheres sim, por isso era importante mostrar alguém que vive a sua vida em liberdade total, mesmo que isso crie problemas à filha e ao genro. É uma personagem sem dúvida interessante de interpretar.
Com a carreira que tem, como é que escolhe os papéis a interpretar hoje em dia?
É sempre depois da leitura dos guiões. Ver se ele é bom, se a personagem que interpreto é interessante. Por exemplo, no “Graças a Deus” do François Ozon tinha um pequeno papel, mas que tinha alguma grandeza. E queria muito trabalhar com ele. Acima de tudo a escolha vem a partir do guião e se este me toca ou não.

E como é trabalhar com o Eric Lavaine?
O Eric é alguém muito inventivo, até na adição de elementos aos diálogos durante o processo de filmagem. Ele ama os atores. E é alguém que sabe bem o que quer, mas deixa-nos propor coisas um pouco diferentes para os seus filmes. Claro que pode não aceitar sugestões, mas ouve-nos. Já trabalhámos algumas vezes e rimos muito. Quando fazemos algo como uma comédia é bom ter esta atmosfera de entendimento.
A Josiane tem uma carreira imensa. Como foi a experiência nos Césares 2021 com a “trupe Splendid” e receber aquela homenagem?
Foi formidável. Não ligo muito à entrega de prémios dos Césares, mas nos últimos anos houve cerimónias muito particulares. Em 2020 tivemos os Césars #MeToo, que foi o que foi (risos), e em 2021 foram os Césares Covid, com trinta pessoas na sala. Foram cerimónias atribuladas (risos). Nos Césares Covid houve uma atriz que se despiu. O que gosto em França é que não há problemas, se isto acontecesse nos EUA ela seria crucificada (risos). Nessa homenagem à “trupe Splendid” foi um prazer reunirmo-nos todos em palco tantos anos depois. Foi preciso um César de carreira para nos juntarmos todos outra vez.

E como foi a experiência de assistir aos Césares #MeToo?
Foi uma experiência muito particular, pois existiam logo manifestações nas ruas quando entramos para o espaço da cerimónia. Durante a cerimónia, mal se pronuncia o nome de Roman Polanski sentimos imediatamente que algo estava a acontecer. Foi um evento muito próprio, até porque pela primeira vez tivemos uma anfitriã e apresentadora que já nem apareceu para o final da cerimónia. (risos) Bem, é a França. Não foi uma noite muito divertida, mas a dos Césares Covid foi.
Mas deve ter sido uma experiência única ver aquela rebelião?
Sim. Por acaso não vi em direto a cerimónia, vi depois. E gosto muito daquela atriz [Adele Haenel], por isso achei engraçado ela ter feito aquilo (risos). É bom que França permita que estas coisas aconteçam em direto (risos).
Mudando de tema, como vê o cinema em tempos de pandemia e o surgimento de tantas plataformas de streaming? Acha que a sala de cinema vai manter o seu espaço na vida dos espectadores?
Creio que as plataformas de streaming vão ganhar preponderância à medida que o tempo passa, especialmente depois do Covid, em que as pessoas ganharam o hábito de pagarem 7 ou 8 euros para ter acesso a tantos filmes e séries. O cinema é mais caro e isso é um problema. Por isso tenho medo que as plataformas ganhem permanentemente espaço na vida das pessoas. A prova disso é que já há muitos produtores que trabalham para elas. O mesmo se passa com alguns atores, até os americanos. Isso naturalmente não é bom para o cinema. Acho que a experiência em sala vai sobreviver, porque vai haver sempre gente que prefere ir a elas.
Fiz esta questão ao seu colega de elenco, o Jérôme Commandeur, se como comediantes têm mais cuidado agora – em tempos da cultura do cancelamento – na escrita de piadas, pois alguém pode levar a mal?
Eu não faço piadas (risos). Bem, para os humoristas é complicado. Eu não tenho particular cuidado naquilo que digo nas redes sociais, mas há muitos haters prontos para criticar nas redes sociais..
E qual é a sua relação com as redes sociais?
Uso-as. Quando surgiu o Covid, na minha conta no Instagram, publicava contos para crianças. Acho as redes sociais interessantes pois permitem-nos dialogar e encontrar pessoas que perdemos contacto. E podemos também comentar a atualidade.
Quais os seus novos projetos para o futuro?
Terminei agora uma peça que escrevi, mas vou repegar nela pois foi um grande sucesso em Paris. Tenho ainda um filme, que não sei se vai avançar.
O teatro continua a ter um grande espaço na sua carreira…
Sim, é importante. Faz cinco anos que não participava na atividade teatral e por isso senti-me muito bem em voltar. Adorava estar com os meus colegas em palco, ver o público a nos visitar todos dias. Foi muito bom.

