Manguebit: Sons de uma revolução pop

(Fotos: Divulgação)

Primeira entre as seis longas documentais em competição pelo troféu Redentor do Festival do Rio 2021 a se destacar no gosto popular e abrir um debate sobre inclusão, “Manguebit”, de Jura Capela, é um exercício de arqueologia afetiva de uma revolução sonora iniciada em Pernambuco, nos anos 1990. Revolução essa que partiu da música (na mescla de tambores com letras centradas em crónicas da periferia) e se espalhou pelas artes plásticas e pelo cinema. Uma batida inusitada transpôs o Nordeste brasileiro para o centro do mercado musical mundial, após o lançamento de bandas como Chico Science & Nação Zumbi e Mundo Livre S.A. A maneira como Jura mostra a polivalência transmediática daquela estética, ao abordar sua junção com as narrativas cinematográficas dos realizadores Lírio Ferreira e Paulo Caldas – no filme de culto “Baile Perfumado” – enriquece ainda mais sua investigação sociológica.

Na entrevista a seguir, Jura Capela fala ao C7 sobre a arquitetura sonora de seu documentário.

Como foi construída a engenharia sonora de um filme que se baseia em um ritmo musical tão potente?

O desejo foi sempre o de criar uma sonoridade capaz de reproduzir a pressão daquelas músicas, daqueles instrumentos, dos shows e, principalmente, a batida dos tambores africanos que vinham dos bairros periféricos de Olinda, que tanto influenciaram na sonoridade do Mangue. O desenho de som foi todo sugerido na montagem, onde buscamos articular esses elementos todos como numa composição musical. Buscamos o ritmo. Buscamos um fluxo que pudesse trazer, pelo menos como intensão, uma ideia de unidade para um material tão diverso. Diferentes gêneros musicais, arquivos ruidosos, depoimentos. E aí, para a edição de som e mixagem, eu chamei o Pablo Lopes, do estúdio Fábrica, em Recife, que além de filmes faz o som do palco para o show de várias bandas e músicos, entre eles a Nação Zumbi.

De que maneira o cinema, a partir da longa-metragem “Baile Perfumado“, em 1996, ajudou a tornar o Mangue Beat um fenómeno cultural multimédia?

Naquela época, o movimento já envolvia muitas pessoas da cidade, contava com o apoio de jornalistas, radialistas, músicos, artistas visuais, artistas gráficos, estilistas de moda, videomakers e cineastas, entre outros colaboradores. Acho que, para além do cinema, esses outros agentes artísticos e culturais também foram protagonistas dessa propagação multimídia. O cinema, com a sua capacidade audiovisual de reunir a maioria desses elementos em um filme como o “Baile”, é um terreno bastante fértil para a compreensão, para a experimentação, para a recriação e para a propagação desses novos médias.

Com que tradição documental a estética do teu filme mais conversa?

Eu tinha uma câmara VHS e vivia filmando tudo que se relacionava ao Mangue, ali pelos anos 1990. Durante quase 25 anos essas fitinhas foram sendo armazenadas em uma caixa de isopor. Acho que antes de qualquer referência, acredito que o estilo desse filme nasce aí, na textura do vídeo amador em formato VHS, dos anos 90. Acho que volto, um pouco, para um modo de fazer do Telephone Colorido (coletivo artístico fundado em 1997), agregando a isso a estética dos videoclipes, dos filmes musicais, dos documentários de Lírio Ferreira, da liberdade dos filmes experimentais. 

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