Sob investigação do governo da Turquia, após a acusação de insultar a moral da sua pátria e de ridicularizar a bandeira da sua nação em “Nights of Plague”, o seu mais recente romance, Orhan Pamuk, vencedor do Prémio Nobel de Literatura em 2006, deixou explícita a sua cinefilia – até então desconhecida – ao participar num debate online, no início de novembro, no Brasil, no Museu da Pessoa.
Na ocasião, o autor de “Neve” e “O Meu Nome é Vermelho” – cujo último livro fala de uma peste do início do século XX – conversou com o C7nema sobre a sua experiência no júri do Festival de Cannes de 2007, presidido pelo inglês Stephen Frears. E falou ainda dos filmes que marcaram a sua juventude e de suas conexões com o realizador turco Nuri Bilge Ceylan, ganhador da Palma de Ouro de 2014 por “Winter Sleep”.
A sua literatura tem uma presença ainda pequena nas telas, embora já tenha sido adaptada para o teatro. Como é a sua relação com a arte cinematográfica?
Quando soube do incêndio na Cinemateca Brasileira (em julho, em São Paulo), pensei que a destruição de um espaço como aquele ressalta o facto de as instituições da memória do cinema terem a possibilidade de trabalhar com cópias dos originais das longas-metragens. Havia uma cinemateca em Istambul, que foi visitada por Henri Langlois (um dos fundadores da Cinémathèque Française). Tive um contato frontal com filmes na minha mocidade, quando tinha entre 16 e 36 anos, e via de tudo, em especial uma fase moderna do cinema alemão.
Existiam muitos filmes bons do Herzog naquela época e vi vários. Era um momento em que Rainer Werner Fassbinder fazia uns três filmes por ano e eu seguia a sua produção com interesse. Mais recentemente, “Cidade de Deus” foi um filme que abriu um universo para mim, com uma importância especial quando eu estava escrevendo “A Maleta do Meu Pai”, que fala de comunidades similares às favelas.
Como foi o trabalho com Stephen Frears em Cannes, no júri que deu a Palma de Ouro ao romeno “4 Months, 3 Weeks e 2 Days”?
Como escritor, já tive a minha prosa submetida a júri, muitas vezes, e sempre fico a pensar no quanto de vaidade existe entre quem avalia uma obra de arte. A experiência em Cannes me concretizou essa impressão, mas num período maravilhoso, de duas semanas, em que eu, um escritor da Turquia, passei pelo tapete vermelho daquele festival várias vezes. Frears conduziu o processo bem. Não posso dizer que foi ótimo, nem que foi mal. O que talvez tenha sido bem diferente para a história daquele evento foi o facto de ter tido um jurado que precisava sempre estar acompanhado por um guarda-costas, pois recebi uma ameaça, antes do festival, por conta das minhas ideias acerca da Turquia, e corria riscos. Precisava participar das reuniões ao lado de um segurança. Gosto muito do “Dangerous Liaisons” do Frears. Ele adaptou um livro diabólico, que se escora em protagonistas demoníacos, e conseguiu transportar essa visão de narrativa guiada por personagens para a tela.
Como o senhor encara os filmes de Nuri Bilge Ceylan, o seu compatriota?
Somos vizinhos. Gosto muito do que ele faz, não apenas por ser um contador de histórias de múltiplas destrezas, mas pelo facto de ele saber produzir de modo independente, com pouco dinheiro.
O que tem lido de interessante da literatura em língua portuguesa?
O livro “Cidade de Deus”, tal como o filme, foi importante para me mostrar que existe mais do que brutalidade no universo das favelas. Mas eu tenho um grande interesse hoje em ler mais Clarice Lispector. O biógrafo dela, Ben(jamin) Moser, foi meu editor.

