Depois de Radu Jude e o seu “Má Sorte no Sexo ou Porno Acidental” terem apimentado os ecrãs no início do ano com um retrato hilariamente absurdo da sociedade, política e instituições romenas, também do leste europeu, mais precisamente da Polónia, chega um novo statment contra a hipocrisia e o clima de julgamento total de uma sociedade, moralmente e eticamente, distorcida nos valores.

Baseado num best-seller literário assinado por Dorota Maslowska, “Other People” (Inni ludzie), da estreante em longas-metragens Aleksandra Terpinska, conta de forma ácida e corrosiva a história de um conjunto de personagens decadentes que se cruzam por uma ou outra razão. O centro é um rapper “wannabe” que assume uma relação adúltera com a “mulher troféu” de um empresário. Este também tem os seus telhados de vidro, como todas as outras figuras que vemos em cena.
Mas o mais curioso de todo o processo fílmico é como estas histórias se entrelaçam num musical, onde praticamente tudo o que ouvimos é debitado em Rap e numa linguagem cuidada, ao estilo shakespeariana. Sim, difícil imaginar, mas na verdade este filme, que teve a sua estreia internacional no Tallinn Black Nights, é um musical atípico. “É um filme sobre hipocrisia, ódio e amor”, explicou-nos Terpinska numa entrevista, garantindo-nos que não é de todo uma rapper, nem tem pretensões de o ser, mas simplesmente uma realizadora a dar os primeiros passos. “O livro original essencialmente é um poema. Toda ele está escrito em versos. Não existem propriamente as cenas que vemos. Está tudo escrito como a letra de uma música Rap. Mas não foi fácil fazer as músicas a partir dele, porque era como uma única música. Não foi fácil criar as cenas e os diálogos a partir dele. E uma coisa que o publico internacional não vai perceber, mas os polacos sim, é que as palavras são ditas de uma forma teatral, quase shakespeariana, mas moderna.”

Terpinska disse ainda que no início não sabia bem se ia fazer um filme a partir do livro que adaptou e chegou mesmo a pensar que este seria um projeto impossível de filmar. “Levou-me muito tempo a adaptar o guião, pois o livro tinha diversos enredos, que vão e vêm com um grande sentido de ironia. A autora é muito precisa no que escreve, às vezes muito brutal, mas igualmente divertida e irónica. (…) tive de fazer uma grande ‘limpeza’ na adaptação e transformar tudo numa forma muito mais cinemática, com um storytelling mais definido. Já vi 2 ou 3 peças de teatro feitas a partir deste livro e cada uma delas concentra-se mais num aspeto. No meu caso, foi nas pessoas. As emoções entre elas e como se tratam umas às outras. Como o ódio passa de uma pessoa para outra. Falo também dos seus desejos e medos. (..) No meu filme existem inúmeros julgamentos. Todas as personagens são muito preconceituosas. Eles detestam os outros, sentem-se melhores que eles, o que reflete os nossos tempos. É um filme mais universal que específico da sociedade polaca.”.
Para a jovem cineasta, foram enormes os desafios de “Other People”, até pelas questões técnicas: “O livro foi complexo de adaptar. Depois tive de planear a construção das canções e a sua ligação às várias cenas. Tudo tinha de ser planeado ao milímetro, pois um tema podia atravessar 6 ou 8 cenas, e eu tinha de pensar como fragmentar a canção entre elas. Tinha de ter tudo muito preciso na minha mente e encontrar a linguagem cinematográfica que fizesse o filme resultar”.

