Já com uma carreira no cinema pontuada por documentários como “Todos os Paulos do Mundo” e curtas como “Os Mais Amados” e “Eclipse Solar“, Rodrigo de Oliveira apresentou agora no Festival de Mannheim-Heidelberg, na Alemanha, o seu mais recente filme, “Os Primeiros Soldados“, o qual aborda a chegada da epidemia da SIDA (AIDS), em 1983, ao estado do Espírito Santo, no Brasil. É aí que acompanhamos uma série de personagens que começam a sofrer os efeitos da doença, enfrentando a discriminação e a ignorância generalizada sobre esta nova “peste“.
Mas além de ser uma justa homenagem a esses primeiros soldados caídos numa guerra que ainda dura até hoje, Rodrigo de Oliveira procura que o seu filme ressoe nos tempos atuais, porque a desinformação continua a existir. “Apenas três semanas atrás o presidente do Brasil, num dos seus arroubos de desinformação e maldade pura, associou a vacina da COVID-19 ao vírus da SIDA, atualizando novamente o estigma“, diz Rodrigo, adicionando que “a maior dificuldade é perceber que ‘Os Primeiros Soldados‘ fala do presente“.
Vale a pena ler abaixo a entrevista completa a Rodrigo de Oliveira, onde ele fala também como escreveu o guião “à base de doses generosas do som de António Variações“, também ele um primeiro soldado caído, neste caso em Portugal, na luta contra o HIV.
Como surgiu a ideia de fazer um filme sobre esta temática e quais as maiores dificuldades que encontrou pelo caminho no seu desenvolvimento?
A identidade de toda a pessoa LGBTQIA+ é marcada pela crise da AIDS (SIDA), de uma forma ou de outra. A homofobia reinante ainda em 2021 tem raízes diretas na devastação causada na minha comunidade pelo vírus e no estigma que daí surgiu. Quando eu pensava nas minhas próprias experiências como jovem gay, saindo do armário apenas dois anos depois do coquetel de remédios que salvou tantas vidas, a presença desse estigma era muito frontal na minha experiência quotidiana. Eu adoraria que este filme nascesse datado, que as preocupações fossem coisa do passado e ele pudesse ser apenas o retrato de uma época superada. Assim, a maior dificuldade é perceber que “Os Primeiros Soldados” fala do presente, que a comunidade LGBTQIA+ vive a crise da AIDS ainda num presente eterno. Apenas três semanas atrás o presidente do Brasil, num dos seus arroubos de desinformação e maldade pura, associou a vacina da COVID-19 ao vírus da AIDS, atualizando novamente o estigma. O mesmo impulso ativista que me despertou ao roteiro, cinco ou seis anos atrás, permanece atual porque é atual a luta contra esta gente grotesca e a favor dos meus, da minha comunidade de pares.
Como foi construído este guião, em termos de investigação de época, buscou histórias reais de pessoas que viveram a época?
“Os Primeiros Soldados” passa-se ao longo do ano de 1983, e uma das razões de situar o filme nesta época foi justamente o apagamento histórico sofrido pelas primeiras pessoas a viver com HIV e enfrentar a crise. No estado onde filmamos no Brasil, o Espírito Santo, o registo das estatísticas começa em 1985, ainda que saibamos que nos dois anos anteriores os casos já existiam – é até tolo perceber como a imprensa local, entre 1983 e 1984, ressaltava que “estávamos livres da peste”, e de repente em 1985 as estatísticas começam a ser contadas e são 200, 300 casos. Essas pessoas foram esquecidas, e foi muito difícil encontrar as histórias reais – elas não sobreviveram. Muitos nem sequer souberam do que morriam, os parentes não dão conta desse passado e restaram-nos os relatos de alguns médicos que estavam na linha de frente da época. O filme nasce então da fabulação dessas histórias, imaginando a luta destes nossos heróis anónimos. Eu não tive acesso à esses meus anciãos, meus pares mais velhos, mentores que nunca foram, de vidas interrompidas bruscamente, então “Os Primeiros Soldados” é um pouco a invenção da minha própria árvore genealógica, a criação das pessoas de quem descendo por afinidade de alma.

Quais as preocupações estéticas (direção artística, guarda-roupa, fotografia) e sonoras (trilha sonora) que teve na recriação do ambiente e de uma época muito específica?
1983 permanece atual, não só tematicamente, mas também como estética, como modo de operação da juventude da moda de hoje. Aquele ano existe ainda, na cidade, na arquitetura, nos carros, no ar, e o nosso trabalho foi saber olhar o mundo e dele recortar 1983. Este é um filme brasileiro de um estado marginalizado na indústria cinematográfica, de orçamento modesto, então sabíamos que era preciso resolver criativamente este mergulho de época, com uma pesquisa imensa do departamento de arte, comandado por Joyce Castello, e de fotografia, de Lucas Barbi. Daí vem nossa janela 1.66, e também o apelo aos primeiros registos em vídeo caseiro, por exemplo. Giovani Cidreira foi o responsável pela trilha sonora, um jovem músico queer da Bahia, e nós tínhamos um amor em comum pelos trabalhos oitentistas dos grandes nomes da música brasileira, como Milton Nascimento e Caetano Veloso: todos eles experimentaram a era dos sintetizadores e das baterias electrónicas, e a nossa inspiração veio daí.
A certo momento ouve-se um “A gente tá junto, mas todo o mundo está sozinho“, como o de soldados abandonados na trincheira de frente de uma guerra. O filme de certa forma funciona um pouco como homenagem a esses “soldados”, mas também serve de crítica social. Como balanceou esses dois mundos: o de histórias individuais dramáticas que compõem uma história coletiva trágica?
No meio da escritura do guião, nós passamos pelo BrLab, um laboratório de desenvolvimento, onde o nosso filme ganhou o apelido de “projeto das grandes expetativas”. Toda a obra de arte que nasce de um grito de minoria vai ter sempre que lidar com esses dois mundos, porque ao mesmo tempo nós queremos contar a nossa história íntima e temos a responsabilidade da história coletiva, porque as minorias em geral precisam ser sujeitos e historiadores de si ao mesmo tempo – nós fazemos as personagens se filmarem em VHS no filme justamente por isso, uma parte fundamental do que sabemos sobre a crise da SIDA hoje está nas fitas de vídeo que as próprias pessoas vivendo com o HIV produziam.
Com “Os Primeiros Soldados” eu queria entender como, desde o começo da crise, essas pessoas e a comunidade ao seu redor espelhariam os modos de sobrevivência e de luta que marcariam as próximas décadas. Então ali estão três protagonistas que representam, cada um, os rostos destes primeiros casos – o homem branco rico que vivia na Europa; o homem negro pobre que acaba de sair do armário, expulso de casa; a mulher trans com histórico de trabalhadora do sexo e que tenta uma nova vida. Instantaneamente eles percebem que não podem atravessar isso sozinhos, e logo se unem numa comunidade de cura e de esperança. Há também ali os tratamentos alternativos contrabandeados do exterior, o auto-registo, a falência do sistema de saúde em absorver estes doentes inéditos, a impossibilidade de enterrar os seus próprios mortos marcados pelo vírus desconhecido, enfim.
O signo da História está marcado em cada uma das personagens. Gosto muito de uma frase do Thomas Mann que diz que, “para uma obra de arte surtir efeito é preciso que haja uma comunhão profunda e misteriosa entre o destino anónimo do seu autor e o destino público da sua geração”. A sobrevivência é a obra de arte de Suzano, Rose e Humberto, os protagonistas de “Os Primeiros Soldados”.
Como foi a sua interação com os atores, ou seja, deixa sempre um espaço para eles construírem as suas próprias personagens ou é alguém muito meticuloso e preciso no texto (guião) que eles têm de seguir?
Eu gosto de ter um guião muito definido, mas a construção dele passa justamente pela colaboração dos atores. Em “Os Primeiros Soldados” nós tivemos inúmeras conversas e três semanas de ensaios intensos antes das filmagens, e tudo o que aparecia de novo e interessante, vindo dos atores, era imediatamente incorporado ao guião. Para mim, o lugar da improvisação textual é a sala de ensaio. O set de filmagem é o lugar da magia, onde importa menos o texto que aquele corpo específico habitando aquele espaço específico, com a mediação da câmara, e aí tudo pode acontecer. O filme já foi escrito com as vozes de Johnny Massaro (Suzano), Renata Carvalho (Rose) e Clara Choveaux (Maura) na cabeça, e o restante dos atores, descobertos através de seleção de elenco, foram logo ganhando espaço com as suas vozes na minha cabeça também.
Crê que depois de termos vivido uma pandemia recente (Covid-19), onde também não se sabia nada no início e havia muita especulação, será mais fácil para o público em geral perceber o drama destas personagens que nos anos 80 passaram por esta tragédia?
As proximidades do filme com a nossa pandemia atual são curiosíssimas, especialmente porque filmamos em setembro e outubro de 2019, portanto, antes da Covid 19. No começo da pandemia haviam muitos artigos corretamente apontando as diferenças entre a crise do coronavírus e a crise da AIDS, especialmente no aspecto da população afetada e do tratamento dado aos doentes e à contenção do vírus. Mas nós não imaginávamos que diversos governos pelo mundo (em especial o brasileiro e o americano) simplesmente decidiriam que era melhor deixar as pessoas morrerem mesmo, que as comorbidades eram culpa delas, que os velhos já estavam perto da morte mesmo então que isso importava menos, enfim. Especialistas precisam fazer uma reaproximação destas duas crises agora que sabemos como o mundo reagiu à Covid 19, e eu não tenho essa capacidade. Mas sinto que agora todos experimentamos, como comunidade global, o que significa uma crise de saúde pública inédita e de alcance terrível, e o espelhamento com o filme é relacionável e próximo.
Qual a importância do seu filme ter uma estreia mundial na Alemanha e que planos existem para o circuito global de festivais que se segue?
A Alemanha é um grande mercado para o cinema mundial, e um filme brasileiro num festival tão tradicional e tão importante é algo a ser celebrado. Mais ainda, nos toca muito a maneira como o filme tem sido recebido aqui, nós que falamos de uma realidade tão distante, mas ao mesmo tempo a partir de chaves universais tão próximas. Daqui, “Os Primeiros Soldados” terá sua estreia asiática no Festival Internacional de Cinema da Índia, em Goa, ainda em novembro, e em dezembro faremos a nossa estreia brasileira, ainda a ser anunciada.
Quero muito que este filme chegue a Portugal. Este filme foi escrito à base de doses generosas do som de António Variações e tenho o Manoel de Oliveira e o João César Monteiro na cabeça sempre que estou atrás de uma câmara.

