Nascida em Haifa, Israel, Michale Boganim viveu e formou-se em Paris na Sorbonne, continuando posteriormente os seus estudos na Universidade Hebraica de Jerusalém. Trabalhou para diversas produtoras como assistente de direção e produtora de documentários e longas-metragens, tendo como filme de final de curso “Dust” (2001). Seguiram-se várias curtas – “La douleur” (1999), “Shema” (1999), “The Factory” (1999), “The Lonely Sea and Sky” (1999), “C’est pour bientôt” (200O ), “Venice” (2OOl), “Memoires incertaines” (2OO2), “Bienvenue chez Dovid” (2006), “Bienvenue chez Renata” (2008) – e as longas-metragens “Macao sans retour” (2004), “Odessa , Odessa “(2004) e “La Terre outragée “(2012).
Dez anos depois desse último projeto, ela exibe agora no Festival de Veneza “Mizrahim, Les Oublies de la Terre Promise”, um poderoso documentário que acompanha o papel do seu pai no movimento Panteras Negras em Israel, mas que parte daí para contar a história de como os Mizrahim – judeus com origem no Norte de África e no Médio Oriente – têm sido submetidos a enormes discriminações desde a fundação do estado de Israel. “Conheço estas histórias pelo meu pai. Queria inicialmente fazer um filme sobre os Panteras Negras no país, mas progressivamente – à medida que ia investigando sobre o tema – fui percebendo que o tema era muito maior que a história dos Panteras Negras.”, explicou-nos a realizadora numa conversa por Zoom. “Para mim foi um choque. Conhecia por alto a história das mulheres iemenitas, mas quando as conheci e falei com elas foi um momento extremamente impactante. E descobri que estávamos perante um grande tema, não apenas um rumor. Quanto mais escavei, mais descobri esta história de discriminação que começou na fundação de Israel, com a alocação das pessoas em certos locais. Sabia que isso tinha acontecido, mas não de uma forma tão consciente, que essa discriminação era tão sistemática. Poucos filmes mencionam isso e senti que tinha de falar deste tema sobre o qual existe muito negacionismo. Pessoas que dizem que tudo isto apenas algo do passado e já não acontece agora. Existe uma repetição de uma história discriminação que vai da da primeira à terceira geração.”

Mas como está a nova geração de judeus Mizrahim a lidar com o assunto? “Há dois tipos de formas em lidar com o assunto”, diz-nos Boganim, antes de especificar que existem aqueles que lutam para falar da discriminação, como a das mulheres iemanitas – que tentam ir ao fundo da questão dos bebés raptados aos Mizrahim e entregues para a adopção a judeus Asquenazes (de origem europeia). “Existe também a vertente da negação, como já disse, e do silêncio.(…) Aqueles que negam estes factos, incluindo a colocação destas pessoas em guetos (…) Mas esta é também uma história universal. Acontece em França e um pouco por todo o mundo. Li muito o James Baldwin que fala muito da discriminação [contra os negros] e como a criação de guetos empata a vida das pessoas durante várias gerações”.
Israel na mira dos seus próprios cineastas
Escapando até ao eterno problema da questão da Palestina, Israel (e os seus governos) têm estado na mira dos seus próprios cineastas. Nadav Lapid é um dos exemplos mais óbvios. No último Festival de Cannes, através de “Ahed’s Knee – Ha’berech”, Lapid chegou mesmo a dizer – através da personagem fictícia de um realizador- que o governo de Israel era o pior de todos os governos.
E não podemos esquecer que há uns anos a própria ministra da cultura israelita criticou todos os cineastas locais que atacavam o governo e o país, sugerindo que esses filmes não deviam ser apoiados financeiramente pelo estado. “Foi muito difícil fazer este filme devido ao negacionismo dos factos e à medida que vais descobrindo e encarando as coisas, mais enraivecido ficas para fazer o filme. Vivo parcialmente entre Israel e França e o que sinto, por exemplo em Televive, é que as pessoas vivem numa bolha e negam imensas coisas. Eu falo disto porque é um tema pessoal, mas existe também a questão da Palestina, que é um enorme problema. E percebo porque muitos realizadores falam do tema com raiva, pois existe também sobre esse tema esse negacionismo, em vários locais de Israel, sobre o está lá a acontecer.”
Impacto e distribuição do filme em Israel
“Não há censura em Israel, isto não é como na Rússia.”, diz-nos a cineasta, dando o exemplo do seu filme sobre Chernobyl (La Terre outragée), o qual simplesmente foi interdito de ser exibido naquele país. “O meu filme será lançado em Israel. O do Nadav foi. Mas sim, terá uma audiência pequena. Não sei ainda como o meu filme será recebido, pois não ataco apenas o governo, mas a cultura do país que diz que a sua cultura é branca para gente branca e não existe espaço para a cultura oriental. O que tento mostrar é que há uma parte da população que tem uma cultura que partilha a herança árabe. Esta cultura árabe foi negada de duas formas, aos judeus orientais e aos palestinianos. O estado de Israel foi criado como um país europeu inserido no Médio Oriente. Para mim, isso é um grande erro pois não tem em consideração que estamos no Médio Oriente e que devemos ter uma maior conexão com a cultura árabe. Metade dos judeus que vieram para este país chegaram de países árabes. Foi-lhes negada a sua cultura, a sua música, etc. O que faço é um ataque político, mas também cultural. Eles dão a entender que cultura europeia é a melhor para Israel.”
Duas ficções no futuro
Depois de “Mizrahim, Les Oublies de la Terre Promise”, Michale Boganim está a desenvolver dois projetos. Um é uma longa-metragem chamada “Telavive-Beirute”, que aborda o conflito entre Israel e o Líbano, seguindo famílias dos dois lados do conflito. “Acabei de o filmar”, explica-nos, acrescentando que não teve qualquer tipo de apoio financeiro do estado de Israel e que se trata de um filme político que incide especialmente nos militares e na ocupação no Líbano, através do olhar de duas mulheres. “Será sobre um tema muito polémico e sensível em Israel”, promete.
Já no outro projeto, “Borough Park”, Boganim espera que seja o seu próximo. Será filmado em Nova Iorque e contará no elenco com Stacy Martin e Matusaiashi. “É sobre a comunidade ortodoxa e talvez o filme no próximo ano”, conclui.

