Numa entrevista ao C7nema após o triunfo em Berlim com “Sinónimos“, Nadav Lapid dizia que era como um cão que gostava de morder a mão de quem o alimenta. Se pegarmos nessa frase e a levarmos até aos dias de hoje, em que o realizador apresentou “Ahed’s Knee” (O Joelho de Ahed) na competição à Palma de Ouro, a verdade é que a mordidela de Lapid desta vez vem carregada de raiva e desprezo para com o pior governo de todos, o Israelita.
Esta é a história de Lapid, aliás, Y, um realizador que parte para uma pequena localidade interior onde é organizada a exibição do seu último filme, um provocante ensaio. Será nessa viagem que Lapid desvenda as verdadeiras batalhas do seu cineasta, Y (inspirado nele mesmo), alguém em luta contra um governo, mas também um Estado que se tornou em algo condenável para ele, estando particularmente na mira o Ministério da Cultura, que tenta controlar o que os cineastas do país podem ou não dizer, secando-lhes subsídios e apoios caso a mensagem do autor do filme não agrade. E há também uma luta pessoal, ligada ao destino da sua mãe enferma, além de um sentimento de solidão permanente que o acompanha e que ele despreza.
Na capa visual desde filme de Lapid, tal como também já acontecera anteriormente, a sua aparente anarquia é um verdadeiro caos organizado, com uma câmara furiosa tanto a disparar planos plongés como contra plongés furibundos, ou simplesmente rodando 360º em toda a sua fúria, como se estivesse a distribuir rotativos contra todos os alvos do autor, onde nem escapa a geografia, “que tem sempre razão”.
Nem o “mergulho” do seu protagonista num lago no meio da paisagem erodida arrefece a cabeça de Y, que, num jogo de diálogos com a diretora adjunta da biblioteca onde vai ser exibido o seu filme, consegue visitar a luz e as trevas, assumindo-se como um “diabo” que implora para as novas gerações israelitas enterrarem aquilo em que o país se tornou.
Na verdade, Lapid conseguiu com este “Ahed’s Knee” executar, cinematograficamente, o míssil mais certeiro até hoje para a herança de Netanyahu no país e para os outros que agora o irão substituir, os quais o realizador Avi Mograbi acredita que serão ainda piores.




















