Catapultado ao patamar dos atores inquietos ao ser nomeado ao Oscar por “The Social Network“, em 2011, o nova-iorquino Jesse Eisenberg tirou qualquer dívida que poderia ter com o cinema mainstream ao viver Lex Luthor na fase DC Comics de Zack Snyder e ao emprestar a voz à arara da animação “Rio” (2011). Usou a liberdade que adquiriu com tais projetos para se lançar em produções indies e arriscar-se na realização. Primeiro veio “When You Finish Saving The World” (2022), uma dramédia honesta, mas de pouca identidade. Era um gesto honesto de exploração do ato de filmar. Passado o teste inicial, ele optou por seguir na trilha do filme independente e arriscar uma segunda longa-metragem no posto de cineasta no qual explorasse as suas origens judaicas e as memórias do trauma da II Guerra Mundial sobre o seu povo. A decisão foi acertada: “A Real Pain“, a sua nova empreitada atrás das câmaras, é de uma precisão Suíça e de uma coragem espartana. O aspeto mais corajoso é a exploração de uma veia cómica para falar tanto de fantasmas do Holocausto quanto de vazios existenciais. A ambição da mise-en-scène é grande, mas é bem amparada nos planos estáticos (e de colorido retinto) da direção de fotografia de Michael Dymek.

Com enquadramentos rigorosamente lapidados (à altura dos olhos das suas personagens), ele constrói uma comédia dramática de atuações convulsivas sobre a viagem dos primos David e Benji Kaplan (vividos pelo próprio Eisenberg e por uma força da natureza chamada Kieran Culkin) por uma Polónia da rota dos expurgos nazis. Por meio de gestos rudes e de uma incontinência verbal furiosa, Benji dá sinais de que há algo de muito errado consigo. O motivo de David estar na excursão com ele é um misto de cuidado e medo. Há nele uma radical disposição para cuidar do parente, por quem nutre um amor fraterno, e há também o pânico de vê-lo se matar. O risco é grande.

Eisenberg documenta as paisagens polacas sem exotismo. Está mais preocupado em mergulhar nos espaços sombrios do par de protagonistas, sempre deleitar-se no modo como Culkin aproveita cada plano que tem para inventar um gesto novo, um olhar de ironia, uma piada ácida. Os vetores geográficos estão em quadro, bem delineados, a mover cada ação dos Kaplan, mas é o mundo interno dilacerado de Benji que mais conta. As suas trevas (presentes até em situações hilariantes) eclipsam toda a gentileza de David e realçam a sua fragilidade numa narrativa que dialoga com a fina flor da filmografia mais “independent” dos EUA dos anos 1990 e 2000, a destacar o Noah Baumbach de “The Squid and The Whale” (2005), que revelou Eisenberg. O bom ator que ele é firma-se como um realizador de fôlego autoral.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/e7eg
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
a-real-pain-atesta-a-voz-autoral-de-jesse-eisenbergEisenberg documenta as paisagens polacas sem exotismo. Está mais preocupado em mergulhar nos espaços sombrios do par de protagonistas