Marina Ruy Barbosa é uma jovem diva da teledramaturgia brasileira que adquiriu, de folhetim em folhetim, entre Aguinaldo Silva e Rosane Svartman, a habilidade rara de decantar o silêncio e fazer dele uma pantomima. A televisão, no Brasil, continua a referendar um formato de narração cuja forma vem da rádio e que, portanto, elege a palavra como soberana. Raros foram os realizadores de séries ou telenovelas — destacam-se Walter Avancini, Amora Mautner e Luiz Fernando Carvalho — que conseguiram conferir popularidade a uma assinatura visual. Marina, contudo, subverte essa engenharia pelo lado da interpretação. Fala mais através do inaudito do seu olhar, da máscara trágica do rosto, numa genealogia à la Lilian Lemmertz, do que pelo verbo. Isso faz dela uma peça essencial na maneira como Bruno Safadi orquestra o thriller Antártida, posicionando-se dentro da dinâmica de produção dos Estúdios Globo, mas procurando comunicar com um cinema mais poroso, aberto a ideias e menos “radiofónico” do que tantas expressões televisivas da sua pátria. Fez, com isso, um espetáculo capaz de incomodar a pasmaceira da classe média, mas que se blinda contra a obviedade pela maneira como dialoga com cartilhas universais de género.
Num momento de clímax de Antártida, o quadro fotografado por Mauro Pinheiro Jr., a partir da moldura estética de Safadi, é tomado pelo olhar perplexo da subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão) diante de uma base de pesquisa. Há ali qualquer coisa do “Anjo da História” associado ao Angelus Novus, de Paul Klee (1879-1940): o rosto assombrado de uma criatura diante de um mundo que parece ter feito da brutalização do próximo um ofício. A diferença fundamental reside no silêncio. O anjo de Klee parece já não ter nada para dizer. Elisabeth, obediente aos códigos militares da Marinha e económica no verbo, guarda aquilo que tem para dizer para uma hora crucial. Claudia Jouvin, responsável pelo argumento, faz dessa contenção uma peça da cartografia de sororidades que constrói num território de arame farpado, ainda que todo ele esteja coberto de branco.
É por essa via que Antártida encontra uma das suas maiores virtudes: a capacidade de gerar discussão acerca da violência contra as mulheres através de um exercício raro no cinema brasileiro, o suspense investigativo. Há algo de whodunit, algo de CSI e um parentesco possível com o febril Wind River (2017), de Taylor Sheridan. Ambos têm neve, isolamento e a ideia de que a paisagem, por mais esmagadora que seja, não constitui necessariamente a maior ameaça. Em Safadi, a neve torna-se ainda um instrumento plástico. O território é branco, quase asséptico; o horror, contudo, nasce de corpos, palavras, omissões e relações de poder.
A operação visual tem uma particularidade industrial. Boa parte do filme foi rodada no Estúdio de Produções Virtuais dos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, num espaço de cerca de 1500 metros quadrados, equipado com câmaras de tracking de alta precisão e mais de 300 metros quadrados de ecrãs LED. A tecnologia Unreal permitiu combinar cenários físicos com ambientes virtuais e imagens captadas na Patagónia através de câmaras 360, reproduzindo inclusivamente uma base antártica que já não existe. O resultado interessa menos como demonstração tecnológica do que pela dificuldade em perceber onde acaba a matéria e começa a fabricação digital. Safadi transforma o calor carioca num deserto de gelo sem fazer da tecnologia uma vedeta.
Tudo isso, porém, é glacé. O bolo recheia-se de gente e do amargor de uma temática vinculada a índices sociológicos de bestialidade sexista. Jouvin parte desse universo para criar uma espécie de Rashomon glacial. Diferentes versões constroem os vértices de uma verdade poliédrica na qual o desrespeito pelo corpo feminino se converte numa máquina de fabricar monstros. Para tornar o eixo investigativo ainda mais vertiginoso, o argumento acrescenta outros percalços: uma falha de energia provocada por um gerador avariado e a batalha do comandante Barros contra um tumor cerebral. É um conflito que amplia a paleta de Antonio Calloni para pintar o destempero humano. O calibre da artilharia dramática deste Karl Malden dos trópicos parece renovar a munição a cada sequência. Calloni é um titã.
A trama instala cientistas e militares numa estação brasileira de investigação na Antártida, onde todos se preparam para atravessar o inverno em isolamento. Na primeira noite, durante uma falha de energia e uma mudança de equipa, a investigadora Inês (Marina Ruy Barbosa) é vítima de violência sexual. Todos os homens da estação passam a integrar o campo da suspeita, incluindo as patentes mais altas. Para piorar, a liderança de Barros (Calloni) encontra-se fragilizada. Uma ferida do passado também se reabre no reencontro da médica e cientista Marina (Leandra Leal) com o homem de quem se afastou devido às agressões dele, o capitão Vicente, encarnado por um Lázaro Ramos taciturno aqui, explosivo acolá.
Diante desse quadro, a subcomandante Elisabeth assume a difícil missão de investigar o crime, enquanto Inês, Marina e Rose (Mariana Sena) percebem que a sobrevivência passa igualmente pela capacidade de se protegerem umas às outras. É aí que Rashomon (1950), de Akira Kurosawa, deixa de ser apenas uma referência cinéfila para se transformar numa engrenagem narrativa. Safadi cria afluentes distintos para um mesmo e crepuscular rio da dúvida, e o montador Rodrigo Lima organiza essas versões num arranjo tenso. O suspense não depende apenas de descobrir “quem fez?”, mas de perceber como diferentes personagens reorganizam os factos para conviver com aquilo que viram, fizeram ou escolheram não ver.
Há um salto importante na relação de Safadi com a narrativa popular. Formado artisticamente nas cercanias de um cinema brasileiro de invenção — com Julio Bressane e Rogério Sganzerla entre os seus fantasmas tutelares —, o realizador de O Prefeito (2015) aproxima-se aqui das exigências dramatúrgicas da televisão aberta sem capitular perante elas. Antártida poderia ter sido simplesmente um The Thing à moda dos Estúdios Globo, com a matriz de John Carpenter adaptada às convenções de um thriller de grande audiência. Não é. Safadi conserva estranhezas, tempos mortos, olhares e zonas de ambiguidade que impedem a narrativa de se transformar num mero produto de género.
Rodrigo Lima é fundamental nessa operação. Coragem nunca faltou ao montador, acostumado a trilhar o pontilhado de vozes autorais inventivas, incluindo Bressane. O inusitado é vê-lo exercitar a sua ourivesaria sobre um material capaz de flertar com aquilo que a televisão brasileira reconheceria imediatamente como espetáculo hollywoodiano. A montagem preserva essa acessibilidade, mas introduz fissuras, reorganiza pontos de vista e converte a investigação num mecanismo de instabilidade. Cada nova versão não resolve necessariamente a anterior. Pode torná-la ainda mais suspeita.
É justamente aí que Marina Ruy Barbosa volta a ocupar o centro do filme mesmo quando Inês não domina fisicamente o plano. A contenção da atriz impede que a personagem se converta numa ferramenta dramatúrgica destinada apenas a movimentar a investigação. O seu silêncio pesa. O olhar passa a ser testemunho, defesa, memória e recusa. Andrea Beltrão trabalha numa frequência complementar, fazendo de Elisabeth uma mulher treinada por uma instituição hierarquizada e masculina que começa a perceber os limites dos próprios códigos. Leandra Leal e Mariana Sena completam essa rede feminina sem que Safadi precise de transformar sororidade em palavra de ordem.
O território de flocos gélidos impõe-se no ecrã, mas a monstruosidade que ali ocorre poderia acontecer em qualquer esquina. Os lobos maus não necessitam do sobrenatural. É nesse ponto que Antártida encontra a sua afinidade mais profunda com The Thing: não na criatura de Carpenter, mas na suspeita permanente acerca de quem está ao nosso lado. O isolamento apenas retira as rotas de fuga. Sem resgate imediato, cercadas por gelo e tempestades, as personagens descobrem que o perigo não vem daquilo que existe fora da estação, mas daquilo que foi levado para dentro dela.
A escritora bielorrussa Svetlana Aleksievitch fez de A Guerra Não Tem Rosto de Mulher uma investigação sobre aquilo que as grandes narrativas históricas deixam de ouvir. É uma chave produtiva para Antártida. Num lugar onde noite e dia parecem fundir-se sob a alvura do gelo, da geada e da avalanche, o mal corre o risco de parecer banal. E é nesse “parecer” que o mal pode transformar-se em Mal: quando se sublima em códigos, em leis insuficientes, em hierarquias ou no silêncio confortável da isenção. O filme escrito por Jouvin e encenado por Safadi recusa essa isenção. Sob toneladas de gelo, procura escutar quem durante demasiado tempo foi obrigado a calar-se.
Antártida estreia nos cinemas brasileiros a 17 de setembro, com distribuição da Paris Filmes, depois de ter aberto, em agosto, a 54.ª edição do Festival de Cinema de Gramado. No elenco estão ainda Gero Camilo, Renan Monteiro, João Vitor Silva, Adélio Lima, Marcos de Andrade e Henrique Barreira. Mais do que a montra tecnológica de uma nova capacidade industrial dos Estúdios Globo, o filme é um ensaio de aproximação entre dois mundos que tantas vezes se estranham no Brasil: a musculatura produtiva da televisão e uma gramática cinematográfica disposta a confiar na imagem, no silêncio e na dúvida.

















