O Festival de Veneza foi oficialmente encerrado após a controversa cerimónia de entrega de prémios. Maggie Gyllenhaal e o seu júri entraram para a história, concedendo a Woman Unknown, de May el-Toukhy, dois prémios: a Coppa Volpi de melhor atriz (Mathilde Arcel) e o Leão de Ouro. Em regra, isso não é permitido pelo regulamento; no entanto, há uma exceção que legitima o que Gyllenhaal e o seu júri fizeram.
Woman Unknown não foi recebido com muita euforia e está longe de ser um dos grandes filmes do festival. As ausências de Danny Boyle, Werner Herzog, Nanni Moretti, Lance Oppenheim e Hirokazu Kore-eda na cerimónia de encerramento chamaram a atenção. Tendo em conta o alto nível da competição, era de esperar que autores prestigiados fossem consagrados e que o júri fosse mais sensível na distribuição dos prémios.
Num ano em que os festivais internacionais ficaram marcados por debates políticos, Gyllenhaal parece ter inflamado ainda mais o público. A sua escolha teve em conta as qualidades de Woman Unknown ou foi um posicionamento feminista? Entre os restantes premiados, destaca-se John Malkovich, que atinge o auge da sua carreira e deve despontar como um dos favoritos ao Óscar de melhor ator. O prémio de melhor argumento também ficou em ótimas mãos. A Good Little Soldier, de Stéphane Brizé, é uma joia que mistura brilhantemente uma linguagem cómica e comentários severos sobre o mundo corporativo.
O Leão de Prata de melhor realização ficou com Ilya Khrzhanovsky. DAU é um filme ambicioso, com uma escala que coloca o cineasta russo noutro patamar. Não por acaso, alguns colegas da crítica chamaram ao filme o “Oppenheimer soviético”. O Prémio Especial do Júri foi para NAZA, de Yuval Abraham e Rachel Szor, o que acabou por ser um prémio adequado, tendo em conta a relevância e a urgência do tema abordado no documentário.
Possible Love, de Lee Chang-dong, levou o Leão de Prata – Grande Prémio do Júri. Esse foi o prémio mais doloroso. Era difícil imaginar um mundo em que o mestre sul-coreano saísse do Lido sem o Leão de Ouro. Possible Love era, de longe, o filme mais maduro, denso e subtil do festival. Mais do que isso: deveria ter sido a coroação de uma carreira exemplar, de um cineasta que nunca venceu o prémio principal num festival desta dimensão.
Quanto à Coppa Volpi de melhor atriz, é uma pena que as irmãs Mara e Alba Rohrwacher tenham sido ignoradas. No fim, o saldo foi bastante amargo, o que, convenhamos, é normal em festivais internacionais.

