Num Festival de Veneza 2025 em que Amos Gitai questionou o porquê da guerra em Why War?, colocando em cena para debate temas como comunidades de interesse, patriotismo e cultura, o também veterano Gianni Amelio levou até ao Lido Campo di Battaglia, um drama que começa nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial, mas que tem boa parte da sua guerra retratada nos terrenos de um hospital militar e nos discursos altivos de uma sociedade aristocrática e nobre que usa o povo, esses ignorantes, como peões descartáveis ao serviço de uma realidade imaginada — a nação — liderada por uma elite.

É nesse hospital que damos de caras com dois médicos, Giulio e Stefano, interpretados, respetivamente, por Alessandro Borghi e Gabriel Montesi. O primeiro é todo ele supremacia e “patriotismo”, investigando pelas camas quem finge condições para escapar à frente de combate, repelindo-os com toda a rapidez necessária para continuar a alimentar a luta por algo maior do que eles. Já Stefano ganha a alcunha de “Mão Sagrada”, infetando deliberadamente alguns pacientes para que estes possam escapar à guerra, mesmo que, para isso, os cegue, ensurdeça ou mutile permanentemente.

Quer um, quer outro, são senhores do destino daqueles homens, deuses, agindo fundamentalmente por interesses próprios, ainda que chamando o patriotismo à equação, fosse para o defender, fosse para o desprezar. Com a entrada em jogo de uma nova personagem, Anna (Federica Rossellini), uma enfermeira com aspirações a médica, mas relegada à sua posição pela condição de ser mulher, o pêndulo do “patriotismo” e da guerra como “dever” ganha força, mas é contrabalançado pelas ações de Stefano, que, aos poucos, vai retirando soldados da frente de guerra, provocando desconfiança em Giulio. É então que, ainda com a Primeira Guerra Mundial em destaque e o desprezo de uma elite pelas gentes comuns ao seu serviço, silenciosa mas letalmente, outra guerra se inicia. Todos os dias começam a chegar doentes, soldados e civis, com tosse, febres altas e indícios de pneumonia. Abre-se assim um novo “campo de batalha”, desta feita contra a Gripe Espanhola, que acabaria por provocar tantos mortos do lado italiano como o conflito armado da Primeira Guerra Mundial.

Gianni Amelio é um cineasta da velha guarda, e as “balas” que dispara neste objeto antibélico, refletor da eterna luta de classes — ou desprezo de classes —, provêm mais das ferramentas dramáticas concedidas aos seus atores e da força das palavras do texto do que dos fuzis, baionetas ou bombas. É fundamentalmente em Borghi, na sua expressividade ou ausência dela, que o filme ganha a sua maior força, servindo-o bem melhor, no campo do concreto, em oposição ao abstrato alienante de intelectualidade tóxica que o filme de Gitai entrega, para refletir sobre o caráter nefasto das guerras e das elites que usam os peões campesinos para manter as suas posições e estatuto.

E, embora existam deficiências na construção de personagens como Anna, educacionalmente tratada como superior, mas relegada à segunda linha da hierarquia de género, esta é estranhamente entregue a discursos moldados sobre a condição natural das coisas, numa total ausência de pensamento crítico. Esse tratamento soa artificial e desmeritório, como o de alguém que está ali apenas ao serviço da história e dos seus dois protagonistas principais. Talvez o cineasta quisesse apenas mostrar o papel de subserviência entregue às mulheres neste tempo pela sociedade patriarcal que governava, mas um pouco mais de chama, carisma e confronto seria necessário para retirar a personagem do campo do adereço.

Independentemente disso, há boas reflexões a retirar de Campo di Battaglia sobre a guerra: seja com armas em punho perante vilões bem visíveis, seja no meio de uma pandemia, onde os vilões são invisíveis, mas tão letais como os outros.

(Texto originalmente escrito em setembro de 2024)

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Jorge Pereira
os-multiplos-campos-de-batalha-de-gianni-amelioGianni Amelio é um cineasta da Velha Guarda e as “balas” que dispara neste objeto anti-bélico refletor da eterna luta de classes (ou desprezo de classes) provêm mais das ferramentas dramáticas concedidas aos seus atores e á força das palavras do texto, que aos fuzis, baionetas ou bombas.