Desde a sua criação, em 1930, os Looney Tunes foram regidos pela máxima de Mikhail Bakunin (1814-1876), segundo a qual “quem quer não a liberdade, mas o Estado, não deve brincar de revolução”, o que vale tanto para uma formação estatal de governo como para as políticas empresariais de uma megacorporação como a Warner Bros. Foi o desligamento (leia-se descarte) gradual de Coyote vs. Acme — comédia hilariante, mezzo animada, mezzo live action — do estúdio dos Irmãos Warner que fez desta produção de cerca de 70 milhões de dólares uma iguaria, não só estética, mas também industrial. Não é sempre que uma longa-metragem estruturada a partir de uma franquia estabelecida há quase nove décadas é rejeitada pelos seus produtores ANTES de ter uma vida em circuito, apenas com base numa política interna de reestruturação. De novo, Bakunin e a sua dinâmica anarquista fazem-se valer: “Não há nada tão estúpido como a inteligência orgulhosa de si mesma”. A WB não percebeu o tesouro que tinha em mãos. Trata-se do argumento mais original (e cheio de ironia) que salta de Hollywood para os ecrãs.
A direção de arte de Steve Arnold (com a luxuosa intervenção de Peter Borck) é um dos achados da parte animada, sobretudo pelo seu diálogo com os traços e as cores dos desenhos serializados da WB de outrora, sobretudo os que eram transmitidos na televisão nos anos 1980 e 90, antes de Tiny Toon Adventures (1990) chegar a territórios para além dos EUA. O desvario do mau comportamento era o eixo dessas séries do passado, com Daffy Duck e Bugs Bunny. Essa descompostura, alheia ao padrão de bom-mocismo da Disney, carrega um eixo bakuniniano: “A paixão pela destruição é uma paixão criativa”.
Criado por Dave Green a partir de um argumento que passou pelas mãos de Samy Burch, James Gunn e Jeremy Slater, Coyote vs. Acme encontra justamente nessa paixão pela destruição a sua mola cómica e, mais do que isso, a sua razão política de existir. A premissa transforma uma das mais duradouras running gags da história da animação num processo judicial: depois de décadas a comprar engenhocas da Acme que explodem, desmontam, falham ou se voltam contra o utilizador, Wile E. Coyote decide processar a empresa. Quem o representa é Kevin Avery (Will Forte), advogado de carreira decadente que encontra no caso daquele cliente incapaz de apanhar o Road Runner uma oportunidade de ressurreição. Do outro lado está Buddy Crane (John Cena), representante da Acme e encarnação muscular de um sistema empresarial em que a responsabilidade desaparece atrás de departamentos jurídicos, estratégias de comunicação e dinheiro.
É nesse ponto que a aventura extravasa a graça de uma premissa engenhosa e se converte numa sátira involuntariamente autobiográfica. Terminada em 2023 e recebida de forma positiva nas sessões-teste, a longa-metragem foi retirada do calendário pela própria Warner Bros. Discovery, numa fase em que a administração liderada por David Zaslav procurava reduzir custos e chegou a considerar produções concluídas como perdas contabilísticas. Batgirl e Scoob! Holiday Haunt tornaram-se os casos mais ruidosos dessa política. Coyote vs. Acme esteve perigosamente perto do mesmo buraco negro. Depois da reação pública e da mobilização de profissionais de Hollywood, o estúdio autorizou a procura de compradores, até que a Ketchup Entertainment adquiriu os direitos em 2025 e lhe garantiu aquilo que parecia óbvio desde o início: uma estreia nos cinemas.
A ironia é tão perfeita que Samy Burch dificilmente conseguiria escrevê-la. Um filme no qual uma criatura esmagada durante décadas pelos produtos defeituosos de uma corporação tenta obter reparação de uma empresa gigantesca acabou ele próprio esmagado pela corporação que o financiou. A sua sobrevivência transforma, portanto, cada explosão, cada bigorna, cada queda e cada produto Acme que se desfaz em cena numa piada adicional sobre Hollywood. Não é necessário aceitar as teorias segundo as quais a ferocidade empresarial do argumento teria provocado o engavetamento para perceber que o percurso industrial do filme lhe acrescentou uma camada que nenhum departamento de marketing conseguiria fabricar.
Green entende, contudo, que essa dimensão metalinguística não pode transformar Coyote vs. Acme numa conferência sobre o capitalismo audiovisual. O que há aqui é, antes de tudo, uma comédia física. O cineasta recupera a velha tecnologia narrativa do encontro entre carne, osso e desenho, tendo Who Framed Roger Rabbit (1988), de Robert Zemeckis, como antepassado ilustre e Space Jam (1996) como parente inevitável. Mas não procura a mesma ostentação técnica de Zemeckis. Interessa-lhe preservar a elasticidade do 2D, deixar que Coyote continue sujeito às leis absurdas de Chuck Jones mesmo quando atravessa espaços fotografados por Brandon Trost. O mundo real adapta-se ao desenho, e não o contrário. Albuquerque e as paisagens do Novo México parecem, por isso, extensões naturais daquele deserto onde Wile E. Coyote passou uma vida a cair de precipícios.
Essa fidelidade à gramática dos Looney Tunes é decisiva. Bugs Bunny, Daffy Duck, Porky Pig, Tweety, Sylvester, Yosemite Sam, Elmer Fudd e outros habitantes daquele manicómio gráfico não aparecem apenas para alimentar nostalgia ou vender propriedade intelectual. Funcionam como testemunhas de uma conceção de humor fundada no desastre. Nos Looney Tunes, ninguém aprende verdadeiramente uma lição, ninguém se torna uma pessoa melhor e nenhuma pancada produz trauma duradouro: o corpo recompõe-se para que possa ser destruído outra vez. Green preserva essa amoralidade deliciosa num tempo em que Hollywood tende a transformar personagens infantis em instrumentos de pedagogia emocional.
Will Forte compreende perfeitamente essa frequência. Kevin é humano, mas comporta-se progressivamente como um desenho animado: tropeça, desespera-se, exagera, é humilhado e volta à carga. O seu talento para interpretar fracassados obstinados permite que a relação com Coyote ganhe uma inesperada ternura sem pedir ao filme que abandone a anarquia. Lana Condor, como Paige Avery, fornece uma âncora afetiva a essa dupla, enquanto John Cena confirma possuir um dos corpos cómicos mais eficazes do cinema americano atual. A graça de Buddy Crane está justamente na contradição entre a monumentalidade física do ator e a infantilidade do homem que interpreta. Cena parece compreender que, diante dos Looney Tunes, a única representação possível é aceitar o ridículo.
A música de Steven Price acompanha essa lógica sem tentar domesticá-la, enquanto a montagem de Carsten Kurpanek mantém uma velocidade capaz de acomodar gags visuais, perseguições, tribunal, referências cinéfilas e aparições das personagens clássicas sem transformar o filme num catálogo de easter eggs. É uma diferença fundamental em relação à lógica corporativa que tantas vezes rege o cinema de franquias contemporâneo: Coyote vs. Acme conhece o património que explora, mas não se ajoelha diante dele. Faz troça dele. Mais importante: deixa que esse património faça troça de quem o possui.
Talvez seja aí que a Warner tenha subestimado o seu próprio tesouro. Green realizou uma produção de estúdio capaz de zombar da própria ideia de estúdio; uma comédia de propriedade intelectual que questiona quem, afinal, é proprietário de uma personagem; e uma celebração de uma marca que encontra vitalidade precisamente quando desobedece às expectativas comerciais associadas à marca. Há ADN de Who Framed Roger Rabbit, ecos de Space Jam e uma memória constante de Chuck Jones, Friz Freleng, Bob Clampett e Tex Avery, mas a graça maior está em perceber que Wile E. Coyote chegou a 2026 sem aprender absolutamente nada.




















