Em cada um dos nove filmes que realizou ao longo de 20 anos de carreira, desde a curta Kitchen, a francesa Alice Winocour encontra sempre espaço para retratar mulheres confrontadas com escolhas pessoais ou profissionais impostas pelo meio em que se movem. A angústia diante de uma decisão crucial é visível na astronauta (Eva Green) de Próxima – O Espaço Entre Nós (2019) ou na vítima de um atentado (Virginie Efira) do intenso Revoir Paris (2022). A incursão no universo da moda, marcado por vaidades e brilhos, em Couture, é uma reafirmação – mais ousada – da assinatura autoral que lhe valeu reconhecimento no panorama europeu. O formato em mosaico eleva a exigência da sua observação empática das solidões femininas, mas confirma também a maturidade da cineasta no domínio dos códigos de realização, estruturando um panóptico a partir do qual um desfile pode ser visto pelas suas entranhas e de múltiplos pontos de vista.

A narrativa decorre durante a Semana da Moda de Paris, onde os caminhos de três mulheres se cruzam. Maxine (Angelina Jolie), uma cineasta americana, descobre ter cancro da mama e envolve-se num inesperado relacionamento com o seu fotógrafo (Louis Garrel); Ana (Anyier Anei), estudante de Farmácia vinda de Nairóbi, desponta como a nova estrela das passarelas; e Angèle (Ella Rumpf, numa inquietante interpretação), maquilhadora francesa, trabalha nos bastidores dos desfiles enquanto tenta publicar um livro. Quando as suas trajetórias se encontram, Couture revela a resiliência discreta que se esconde por trás dos holofotes e presta homenagem aos laços tácitos de solidariedade que estas mulheres, diferentes em profissão, cultura e origem, partilham.

Angelina Jolie liberta-se aqui de todas as amarras que Hollywood lhe possa ter imposto no passado, oferecendo a composição mais livre da sua carreira desde a consagração em Girl Interrupted (1999). O medo guia a sua personagem: medo de abandonar a filha, de ficar sem dinheiro, de não realizar o filme que lhe foi proposto e, acima de tudo, de morrer. A apreensão face à possível mastectomia e à quimioterapia abala profundamente as suas certezas.

Com as restantes protagonistas, Alice Winocour não mergulha com a mesma intensidade. Por mais que Anyier Anei se entregue de corpo e alma para transmitir as aflições da modelo Ana, a realizadora recorre em excesso à ingenuidade da personagem, arriscando cair em superficialidade e em clichés já associados ao mundo da moda.

A opção por uma dramaturgia fragmentada evoca o Robert Altman de Prêt-à-Porter (1994), ainda que sem o humor corrosivo do cineasta americano. A evocação surge sobretudo na montagem sinuosa de Julien Lacheray e Lilian Corbeille, sempre firme, mas incapaz de ocultar algumas fragilidades deste filme que, apesar de imperfeito, transborda humanismo ao falar de resiliência. O prazer de ver Jolie a atuar no limite do seu vigor torna Couture uma atração imperdível, reforçada pela vibrante direção de fotografia de André Chemetoff.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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