Coerência é um termo que Hollywood conjuga com o lucro… apenas com ele. Portanto, existe, sim, um movimento coerente no regresso de bruxas que a indústria audiovisual dos EUA deixou adormecidas durante 28 anos: a falta de franquias que rendam tanto quanto Sandra Bullock e Nicole Kidman faturaram, lá atrás, em 1998, ao interpretarem Sally e Gillian Owens. A volta desse piroso duo em Practical Magic 2 — que no Brasil ganhou o título Da Magia à Sedução: Feitiço de Amor e em Portugal chega como Magia e Sedução: Segredos de Família — expõe como é difícil encontrar uma linha de longas-metragens feitas com (e para) atrizes já maduras num mercado nem sempre generoso com os seus ativos mais experientes.

Realizada pela dinamarquesa Susanne Bier (do oscarizado In A Better World), a sequela recupera ainda Dianne Wiest e Stockard Channing, agora acompanhadas por Joey King, Maisie Williams, Lee Pace e o sempre inspirado Xolo Maridueña. É uma operação típica de um dos veios mais pop de Hollywood: a legacy sequel. Chama-se assim a uma continuação que regressa décadas depois ao universo de um filme popular, recupera os seus rostos e os seus tropos, de modo a transferir parte do seu legado para uma nova geração.

O conceito tem antecedentes nas histórias aos quadradinhos. DC e Marvel aprenderam há muito que uma personagem antiga pode ser recuperada sem que seja necessário apagar a memória construída em torno dela. Quando Neil Gaiman lançou The Sandman, em 1989, aproveitou um nome que existia na DC desde 1939 para criar algo radicalmente diferente: em vez do vigilante Wesley Dodds, surgiu Dream, um dos Perpétuos, entidades que representam forças fundamentais da existência. Décadas depois, a criação de Gaiman chegou à televisão através da Netflix. A Marvel realizou uma operação comparável com Ghost Rider: Johnny Blaze, criado em 1972, deu lugar, em 1990, a Danny Ketch, nova encarnação do Espírito da Vingança, responsável por revitalizar uma personagem que perdera força comercial.

O audiovisual percebeu rapidamente a utilidade desse mecanismo. Uma legacy sequel não é simplesmente uma continuação tardia: o passado precisa de participar ativamente na dramaturgia do presente. O velho protagonista pode regressar para entregar a história a uma nova geração, pode descobrir que envelheceu juntamente com o público ou pode simplesmente perceber que aquilo que fez décadas antes deixou consequências. A terceira trilogia de Star Wars, iniciada por J.J. Abrams com The Force Awakens (2015), recuperou Han Solo, Leia e Luke Skywalker para os colocar diante de Rey, Finn e Kylo Ren. Creed (2015), de Ryan Coogler, fez melhor: Rocky Balboa deixou de ser o centro da narrativa e passou a ajudar Adonis Creed (Michael B. Jordan), filho de Apollo, o adversário que se transformara no seu amigo. Sylvester Stallone voltou a Rocky com tamanho peso dramático que recebeu uma nomeação ao Óscar de Melhor Ator Secundário.

Mas talvez ninguém tenha entendido tão bem a mecânica da legacy sequel como Cobra Kai. A série, iniciada em 2018, recuperou Daniel LaRusso (Ralph Macchio) e Johnny Lawrence (William Zabka) mais de três décadas depois de The Karate Kid (1984) e teve a inteligência de perguntar se o vilão daquela história continuaria necessariamente a ser vilão quando observado pela perspetiva da idade adulta. Em vez de simplesmente reproduzir o duelo de 1984, transformou memória em matéria dramática, reconciliou gerações e incorporou personagens jovens. No Brasil, a ligação com o passado chegou ao pormenor afetivo de recuperar Mário Jorge Andrade, voz histórica de Zabka na dobragem. A série terminou em 2025, depois de seis temporadas, provando que a nostalgia pode ser ponto de partida em vez de ponto de chegada.

No cinema, o padrão-ouro continua a ser Top Gun: Maverick (2022). Tom Cruise regressou a Pete “Maverick” Mitchell 36 anos depois de Top Gun, mas Joseph Kosinski percebeu que o tempo decorrido precisava de aparecer no ecrã. Maverick é simultaneamente herói e relíquia, obrigado a formar pilotos que pertencem a outro mundo e a confrontar Rooster (Miles Teller), filho do falecido Goose. O fenómeno mundial de bilheteira — quase 1,5 mil milhões de dólares — demonstrou que o filão não precisava de se limitar a explorar a saudade: uma legacy sequel podia ter existência cinematográfica própria e, ao mesmo tempo, transformar o envelhecimento do protagonista no seu assunto.

Na verdade, Hollywood já ensaiava a fórmula muito antes de lhe dar um nome. Paul Newman foi nomeado para o Óscar por interpretar o jogador de bilhar Fast Eddie Felson em The Hustler (1961) e, 25 anos depois, regressou à personagem em The Color of Money (1986), de Martin Scorsese. Desta vez, ganhou finalmente o Óscar competitivo de Melhor Ator. Em França, François Truffaut transformou Antoine Doinel numa experiência ainda mais radical sobre o tempo: Jean-Pierre Léaud estreou a personagem adolescente em Les Quatre Cents Coups (1959) e voltou a vivê-la em Antoine et Colette (1962), Baisers volés (1968), Domicile conjugal (1970) e L’Amour en fuite (1979). O ator envelhecia e Doinel envelhecia com ele.

A Pixar também aprendeu a trabalhar com intervalos longos, embora nem todos os seus regressos sejam legacy sequels em sentido estrito. Finding Dory chegou 13 anos depois de Finding Nemo (2003); Incredibles 2 esperou 14 anos pelo reencontro com a família Parr; Toy Story 3 surgiu onze anos depois do segundo filme e Toy Story 4 acrescentou mais nove anos à espera. Monsters University, por sua vez, preferiu andar para trás e contar a juventude de Mike e Sulley, enquanto Lightyear transformou Buzz numa espécie de personagem dentro da personagem. São variações da mesma economia da memória: Hollywood percebeu que o espectador não paga apenas para saber “o que acontece depois”; paga para reencontrar uma sensação.

É precisamente aí que Practical Magic 2 encontra a sua razão de existir, apoiado tecnicamente numa direção artística impecável. O filme original de Griffin Dunne, lançado em 1998, não foi recebido como um clássico imediato. A mistura de fantasia, romance, comédia negra, violência doméstica e melodrama faturou uns 90 milhões de dólares e dividiu a crítica, mas foi conquistando estatuto de culto ao longo dos anos, sobretudo pela química entre Bullock e Kidman e por uma ideia de feitiçaria associada à cumplicidade feminina. O que Hollywood recupera agora não é, portanto, um antigo campeão de bilheteira: recupera uma memória que cresceu depois da estreia. É uma distinção importante para perceber a lógica atual das legacy sequels.

Bier parte ainda de uma matéria literária. O argumento de Akiva Goldsman, Georgia Pritchett e Kelly Marcel inspira-se em The Book of Magic (2021), de Alice Hoffman, e volta à maldição das mulheres Owens: qualquer homem que se apaixone por uma delas está condenado a morrer. Sally tentou esconder das filhas a herança mágica da família, mas Kylie (Joey King) acaba por descobrir aquilo que lhe foi negado quando a maldição ameaça o homem que ama. A busca leva a nova geração até Inglaterra e obriga Sally e Gillian a confrontarem não apenas a magia, mas aquilo que decidiram transmitir — ou esconder — das filhas.

É aí que entra o segundo feitiço do filme: o fascínio inesgotável do cinema pelas bruxas. Da criatura monstruosa perseguida pela religião à feiticeira pop, da ameaça sexual à figura de emancipação feminina, a bruxa talvez seja um dos arquétipos que mais facilmente mudam de significado conforme a sociedade que os filma. The Wizard of Oz, The Witches of Eastwick, The Craft, Hocus Pocus, The Witch e as duas versões de Suspiria praticamente não falam da mesma criatura, embora todas recorram ao mesmo imaginário. A bruxa pode representar medo, desejo, comunidade, rebeldia, sexualidade, maternidade, conhecimento ou uma forma de poder que existe fora das estruturas masculinas.

Practical Magic percebeu isso de uma forma especialmente afetiva: as Owens não são interessantes porque conseguem fazer magia, mas porque pertencem a uma linhagem de mulheres que precisam de sobreviver umas às outras, aos homens e àquilo que herdaram. A nova sequela torna essa ideia literalmente geracional ao colocar Bullock e Kidman diante de Joey King e Maisie Williams. Wiest e Channing acrescentam ainda a geração anterior. A magia passa, portanto, a funcionar como herança familiar — exatamente a mesma engrenagem narrativa que sustenta uma legacy sequel.

Talvez seja esse o verdadeiro truque de Practical Magic 2. Vinte e oito anos depois, Hollywood convoca duas estrelas, quatro personagens e um universo que o público aprendeu a amar muito depois de 1998, mas o que está realmente a vender é a possibilidade de confrontarmos quem éramos quando vimos aquelas mulheres pela primeira vez com aquilo em que nos transformámos.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
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