Imparável aos 88 anos, Ridley Scott atira para todos os lados, sem o cuidado de olhar para o que pode ser artisticamente essencial para o nosso tempo. Depois de quase seis décadas de carreira, o realizador continua a investir nas fórmulas mais variadas do cinema de género, como se cada novo filme servisse para exibir uma destreza técnica que o tempo só apura. Só não tem o cuidado de se desviar do que possa ser apenas um entretenimento genérico, sem viço ou espírito estético. The Dog Stars, adaptação do romance homónimo de Peter Heller, é mais um deslize. Trata-se de uma aposta na ficção científica pós-apocalíptica, pelas vias da distopia, com forma de thriller de sobrevivência e desejo de ser um western crepuscular, mas oferece pouco mais do que um inventário de chavões. O resultado lembra o de Waterworld (1995), embora aqui ninguém corra o risco de se afogar.
Após uma pandemia de gripe que dizimou a humanidade, Hig (Jacob Elordi, esforçado), um antigo piloto civil, vive num pequeno aeroporto abandonado com o seu cão e Bangley (Josh Brolin, sempre brilhante), ex-fuzileiro naval, homem solitário e armado até aos dentes. Quando uma misteriosa transmissão de rádio surge no aparelho de Hig, ele decide partir em busca da sua origem, convencido de que pode existir uma réstia de civilização para lá daquele território devastado. Pelo caminho, os sobreviventes enfrentam os chamados “Reapers”, grupos de saqueadores que transformaram a ruína do mundo numa forma de existência.
O problema é que nenhuma personagem, à exceção do velho lobo solitário Bangley, se sustenta para lá da fronteira do arquétipo. E Bangley só escapa dessa condição porque tem Josh Brolin à sua disposição. O ator empresta ao ex-fuzileiro uma espessura, uma ironia seca e uma melancolia que o argumento nunca consegue oferecer por si próprio. Jacob Elordi limita-se a ocupar o centro emocional de uma história que pede ao seu protagonista uma humanidade que o guião raramente consegue formular.
A fotografia de Erik Messerschmidt é de uma burocracia digna de repartição pública. Não há aqui a exuberância visual que marcou alguns dos melhores trabalhos de Scott, nem uma assinatura plástica capaz de transformar a paisagem devastada num território de pesadelo. Na montagem, também não se encontra o eixo rítmico de ação de que a trama necessita. O que poderia ser um thriller taquicárdico fica confinado a uma dimensão cansada, sem urgência, surpresa ou verdadeiro sentido de perigo.
Entre a publicidade e o cinema desde 1965, quando filmou a curta Boy and Bicycle, passando ao formato de longa-metragem com The Duellists (Melhor Filme de Estreia em Cannes, em 1977), Ridley é sinónimo de eficiência há quase cinco décadas, mas nem sempre a sua obra é garantia de poesia. Fez uma obra-prima ao estudar a barbárie em Black Rain (1989) e formou um culto com Alien (1979), mais ainda com Blade Runner (1982) e Thelma & Louise (1991), embora tenha errado muito em Hannibal e Black Hawk Down. A sequela de Gladiator (2000), lançada há dois anos, contudo, foi o seu trabalho mais eficaz — eficaz e poético, da mesma forma que o seu injustiçado Napoleon (2023). Em ambos, cartografa culturas expansionistas que expandem fronteiras com a invasão de territórios alheios, mas tropeçam na alienação dos seus árbitros políticos em relação a forças de resistência e a conspirações internas. Esse mote torna-se explícito no guião do seu segundo épico sobre o Coliseu, numa frase: “Roma infecta o que toca”. De certa forma, The Dog Stars expõe que a civilização apodrece tudo aquilo de que se aproxima. Reside aí uma centelha autoral. Uma centelha crepuscular.
Mas essa centelha não basta para salvar The Dog Stars da sua condição de exercício de género sem verdadeira combustão interior. Scott continua a dominar a escala, o movimento, a maquinaria e a superfície do espetáculo. Falta-lhe, aqui, aquilo que os seus melhores filmes encontraram no meio de toda essa competência: uma alma.
The Dog Stars chega aos cinemas portugueses com o título Na Companhia das Estrelas e ao Brasil como Ponto Sem Retorno.





















