Mundurukuyu-A Floresta das Mulheres-Peixe é um extraordinário documentário filmado na aldeia Sawre Muybu, às margens do rio Tapajós, no Pará, na Amazónia brasileira, filme que reflete a cosmologia e a mitologia do povo Munduruku.
Mitologia na qual, na origem do mundo, os humanos se transformavam em plantas e animais. No quotidiano da aldeia Sawre Muybu, os espíritos da floresta não são apenas forças ancestrais para o povo Munduruku, mas membros ativos da sua alargada família, que inclui a natureza.
A cosmologia do povo Munduruku, compreende o conjunto de saberes, tradições, costumes, rituais e a sua visão de mundo. Para os povos originários, o ecossistema, as matas, os rios, a terra não são recursos económicos, mas seres vivos ligados à ancestralidade. Eles pensam e agem no mundo tendo em conta o coletivo e não o indivíduo. A vida em comunidade e o bem-estar de todos estão acima da acumulação individual de bens e da noção de propriedade. A terra para eles não é um bem comercializável, é um território partilhado e cuidado por todos que nela habitam, a preservação ambiental é para eles tão necessária, quanto a preservação da própria existência, da vitalidade humana; e a floresta faz parte da vida deles, portanto, uma ecologia integral. Há uma profunda conexão entre a cosmologia das etnias indígenas e a natureza. Sendo o tempo e outros elementos da natureza vistos pelo povo autóctone de forma circular, como uma espiral, são guiados pelos ciclos da natureza e não pelo tempo cronos linear. As estações do ano, o período das chuvas e o momento certo para caçar, plantar e pescar são orientados pelas fases da lua, pelo funcionamento da natureza.
Entrando no documentário Mundurukuyu-A Floresta das Mulheres-Peixe, na primeira cena as realizadoras Aldira Akay Munduruku, Beka Saw Munduruku e Rilcélia Akay Munduruku discutem que filme desejam fazer, e então decidem falar sobre a história e a cultura do seu povo, incluindo a mitologia e a cosmologia. Uma auto etnografia, ancorada nos relatos do cacique Juarez Saw Munduruku. Cacique que nos conta as histórias mitológicas dos homens que foram transformados em porcos, do rapaz que virou anta, mito que acabou por transformar as mulheres da aldeia em peixes.

As realizadoras vão expondo no ecrã as tradições e o quotidiano dos mundurukus: os cuidados do pajé que examina a saúde de uma jovem mulher grávida e igualmente analisa a clarividência de um menino destinado a ser pajé; vemos mulheres a fazer a colheita e dialogando sobre o uso de plantas medicinais; o ritual da pesca coletiva chamada Tinguijada (pescaria tradicional que utiliza extratos da planta-cipó tingui para atordoar os peixes e facilitar a sua captura na água); também nos é dado a ver a cerimónia dos primeiros indígenas formados no Ensino Médio na região do Tapajós.
Um filme que acede à memória cultural, à ancestralidade e à tradição indígena, para pensar a vida no tempo presente, destacando o papel feminino na preservação ambiental e cultural do território amazónico.
Uma obra cinematográfica que por um lado, relaciona a harmonia dos indígenas com a natureza, e por outro expõe a destruição da floresta e a poluição dos rios causada pelo garimpo ilegal (na extração de ouro e outros minerais valiosos) e pela construção de barragens e hidrovias, causada pela agropecupária extensiva (fazendas de criação de gado de corte) e pelas plantações de soja e pela exploração proibida de madeira – conjunto de males que ameaçam a vida dos povos habitantes do território amazónico.
Ao contrário dos filmes indígenas que estamos habituados a ver, feitos por pessoas de fora das aldeias, os chamados pariwat, as realizadoras constroem uma etnografia própria, retratando a sua comunidade evidenciando o que há de bom, colocando-se à frente e atrás da câmara, recuperando as narrativas do cinema sobre os povos nativos da Amazónia.
As três jovens mulheres Munduruku usam a câmara como dispositivo ecológico, cultural e político para lutar, defender e proteger o seu território, para preservar as suas tradições e reivindicar o direito de contar a história do seu povo. Através desta perspetiva auto-etnográfica, as realizadoras documentam a riqueza cultural dos Mundurukus, e também partilham com os espectadores os enfrentamentos diários dos povos indígenas, contra as invasões de todo tipo e a desflorestação de um território poderoso do ponto de vista ecológico, e não só, e que a muitos atraem. Povos que persistem em resistir à devastação incessante da Amazónia causada pelos homens brancos.
O documentário possui uma relevância também antropológica ao inverter a dinâmica da observação daqueles que vêm de fora, colocando as mulheres indígenas da aldeia Sawre Muybu na posição de realizadoras de cinema, algo que, normalmente, é distante da realidade delas.
Gostava de destacar que depois de um longo processo de luta pela demarcação, a aldeia Sawre Muybu do povo Munduruku obteve finalmente em setembro de 2024 o seu território demarcado, no atual governo do Presidente Lula.
Mundurukuyu-A Floresta das Mulheres-Peixe tem argumento e realização do Coletivo Audiovisual indígena Daje Kapap Eypi, composto pelas três mulheres da aldeia Sawre Muybu, Beka Munduruku, Aldira Akay e Rilcélia Akay (elas não são irmãs), argumento escrito em coautoria com Vitor Rocha, Produção de Estevão Ciavatta (conhecedor da Amazónia), junto com a Pindorama Filmes e a Globo Filmes. A montagem equilibrada é de Luana Bazhuni. A fotografia esplendidamente verde e quase tátil de Carlos Araió Nascimento. O Storyboard e a Animação de Nelson Porto. Com duração 72 minutos, o filme é falado na língua indigena Munduruku e em português.
O documentário foi integrado a Seleção Oficial de relevantes festivais de cinema como o Hot Docs (Canadá), É Tudo Verdade (SP), Festival do Rio, entre outros, na sua curta trajetória já acumulou vários prémios, foi exibido na COP 30 em Belém, estreou nas salas de cinema do Brasil em 26 de agosto de 2026. Em Lisboa foi exibido recentemente na Cooperativa Rizoma, no dia 2 setembro de 2026, no encerramento do Ciclo de Cinema Ambiental II, programado por mim, Lidia Mello. Distribuído na América Latina e na Europa pela Utopia Docs. Em breve estará disponível em plataformas de streaming. FIQUE ATENTO/A. UM FILME A NÃO PERDER!

















