Aguardava com extrema curiosidade o que a dupla Anthony e Joe Russo faria depois da aventura “Avengers”, onde através de dois filmes tentam construir e montar um mosaico sólido a partir de duas dezenas de filmes de um universo “bigger than life” para a Disney,

Mas olhando depois para este “Cherry”, o seu novo filme, percebe-se que não só se evidencia uma abordagem ingénua e até infantil ao material, como uma tendência estética para a linguagem do anúncio publicitário, em particular o videoclipe, onde as luzes permanentemente invadem as cenas, como que tentando iluminar vidas que tentam sobreviver e encontrar o amor num mundo sombrio que os corrompe.

E compreenda-se que não há nada de infantil num filme que apresenta não só corpos chamuscados em plena guerra, como corpos debilitados pela adição às drogas, mas é no discurso e transição entre os momentos chaves da vida de Cherry (Tom Holander) que se vislumbra uma enorme superficialidade e uma abordagem demasiado inocente marcada pelos lugares-comuns.

O filme começa como qualquer coming-of-age romântico, com Cherry a conhecer a “mulher da sua vida”, Emily (Ciara Bravo), enquanto sente-se deslocado do mundo em que vive, com as festas adolescentes a não o atraírem e ainda menos o seu trabalho num bar. A dupla apaixona-se, mas no espectro da separação, Cherry inscreve-se nas forças armadas, partindo de seguida para a recruta e depois dela para o Iraque, onde vai ter de lidar com a dureza da guerra. O casal nunca se separou, casou-se mesmo, e mantém-se unido depois de Cherry regressar do Iraque com transtorno de stress pós-traumático, o que o vai conduzir às drogas como escape aos demónios pessoais e ao cheiro a morte que trouxe do Médio Oriente. Aqui, o filme que começou como coming-of-age romântico e passou para filme de guerra, transforma-se num drama de adições, que depois encaminha-se para um filme de ação e assaltos a bancos, até regressar ao drama novamente.

É nessas incursões por géneros e transições simplificadas, sempre com uma estética de anúncio publicitário, que os irmãos Russo mostram não estar à vontade para realmente entregar um objeto sólido de cinema, mas sim um registo audiovisual colado a cuspo a partir de um guião débil acriançado que ambiciona ser um épico de vida de um casal marcado pelas maiores epidemias da sociedade norte-americana: as drogas e o constante estado de guerra.

O casal Tom Holland e Ciara Bravo ainda brilham em 2 capítulos da história em que o filme se aproxima de um novo “(500) dias com Summer”, mas quando entram na fase “Requiem For a Dream” nunca conseguem acompanhar os desígnios exigidos às suas personagens, sentido-se que estamos permanentemente perante dois miúdos artificialmente colocados em corpos adultos e a dramas que nunca se sentem realmente seus.. 

E é por isso que “Cherry” nunca realmente funciona além do carisma inerente dos atores, transportados de outros universos (Tom Holland, por exemplo, é o Homem-Aranha), e dos Russo, que com o seu trabalho visual carregado, até na construção de um derradeiro vilão final que parece saído da Marvel, apenas mostram que sabem filmar, mas não têm ainda a noção de cinema para adultos como os irmãos Coen, dos quais são fãs e assumem influências, entregam.

Pontuação Geral
Jorge Pereira
cherry-tentativa-epico-dos-irmaos-russo-perde-se-em-ingenuidades-e-estetica-de-videoclipe“Cherry” nunca realmente funciona devido a uma jeito infantil de lidar com todas as matérias