«Mar» por Jorge Pereira

(Fotos: Divulgação)

O regresso de Margarida Gil ao cinema 

O regresso de Margarida Gil, cujas últimas obras (Paixão; O Fantasma de Novais; Esquina do Tempo) datam de 2012, revela-se um objeto ambicioso, mas encalha logo à beira-mar na sua tentativa de contar uma história contemporânea e ligá-la à epopeia das Descobertas, sem que para isso consiga construir uma história, personagens e ligações coerentes.

A história de uma mulher Francisca (Maria de Medeiros), uma viúva de 50 anos, que embarca mar adentro num veleiro comandado por Toni (Nuno Lopes), e que é acompanhada por um grupo de personagens à deriva nas suas vidas (um traficante de arte, um refugiado e uma cantora sensual), poderia gerar múltiplas narrativas e encher de profundidade o ecrã. Ao invés, quase tudo é representativo (a nível pessoal e social), estereotipado (relações, superstições e motivações) e definitivamente dado a pouca reflexão, mesmo quando esta viagem se cruza com o drama dos refugiados.

No melhor, fica a técnica (bons e belos planos), as prestações dos atores (Lopes, Medeiros e Wallenstein) e as referências à arte, à cultura e em particular a João César Monteiro, aqui polvilhado por todo o lado, a começar no veleiro chamado ‘À Flor do Mar’ – nome do filme do falecido cineasta estreado em 1986.

Bonita homenagem e/ou influência (foi através dele que a realizadora entrou no cinema nos anos 70), Margarida Gil não consegue ainda assim – muito por culpa do seu argumento assinado a meias com Rita Benis – levar o seu veleiro a bom porto, ou seja, cumprir com o pretendido, causando mesmo estranheza a mudança radical nas atitudes de algumas personagens (Lopes, Wallenstein) sem que exista uma verdadeira continuidade que as explique.

Ficam as boas intenções, mas estas nunca chegam para fazer filmes de qualidade.


Jorge Pereira 

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