
No filme checo Libanky (2013) estamos num casamento que mais parece um conto de fadas, mas que ganha outros contornos quando um estranho surge em cena afirmando ser um amigo de longa data do noivo. Aos poucos vamos descobrindo o passado deste homem, ao ponto da esposa (Anna Geislerová) chegar à conclusão que não conhece assim tão bem o marido, o que a levará a reavaliar toda a relação. Esta introdução serve para dizer que a maioria dos elementos chave deste Um Presente do Passado (The Gift) estão presentes nesta produção checa que nunca passou comercialmente por Portugal, mas que deu que falar no festival de Karlovy Vary e em Toronto (TIFF).
Simon (Jason Bateman) e Robyn (Rebecca Hall) são um par que encontra em Los Angeles a sua nova casa após o primeiro arranjar trabalho na cidade. Enquanto fazem algumas compras, Simon é abordado por Gordo (Joel Edgerton), um antigo colega do liceu que não via há vários anos. Aos poucos o casal vai encontrando presentes à porta de sua casa, ou recebe mesmo a visita do ilustre “estranho”. Isto é algo que irrita profundamente Simon e que provoca alguma apreensão em Robyn, que aos poucos vai entendendo que a relação do marido e esse homem é mais complicada do que as aparências fazem crer.
Entenda-se que Um Presente do Passado vive muito de códigos clássicos dos filmes sobre invasões domiciliares (“home invasion movies”), e isso afeta-nos de forma primitiva pois facilmente nos colocamos na pele das vítimas (não admitimos estar inseguros na nossa própria habitação). Este subgénero não nasceu nos anos 80 e 90 (longe disso), mas foi provavelmente nessas décadas que foi mais prolífico e onde surgiram algumas das obras mais emblemáticas, como Jovem Procura Companheira, O Cabo do Medo (o remake, de Martin Scorsese), ou Brincadeiras Perigosas.
Quando no drama O Padrinho vemos uma personagem a acordar com a cabeça de um cavalo ao lado, surge em nós uma sensação de aviso, de desconforto e de perigo real iminente. O mesmo sucede quando encontramos um coelho numa panela em Atração Fatal. Como tal, quando desaparece um cão ou encontramos outros animais mortos neste Um Presente no Passado, os signos levam-nos automaticamente a ver que as personagens centrais da trama não estão de todo seguras. A isto acresce ainda o facto dos vilões neste género de filmes terem marcas pessoais muito características (como se os argumentistas lhes decidissem atribuir uma fisionomia ou trejeito únicos), o que de certa maneira nos cria algum desconforto e uma certa estranheza (quando olhamos para De Niro em Cabo do Medo, ou Robin Williams em Câmara Indiscreta, automaticamente estabelecemos que algo não “bate certo” neles).
Ainda assim, o melhor que encontramos por aqui é mesmo a progressiva descoberta de segredos que irão aos poucos corroer a relação de um casal inicialmente livre de qualquer suspeita. Apesar destes elementos estarem todos presentes num filme que à superfície é mais um do subgénero, isso acaba por trazer para primeiro plano uma dualidade interessante: quem é, afinal, o verdadeiro vilão? A pessoa a quem mudamos a vida para sempre, ou quem nos atormenta agora? Certo mesmo é que não tendo uma resposta clara sobre isso, sabemos que a grande vítima deste Um Presente do Passado é mesmo Robyn, uma mulher apanhada no meio de uma guerra de hipocrisia, supremacia e competição que vem desde os tempos do liceu.
Segundo o ator Joel Edgerton, que aqui se estreia com alguma classe e engenho na realização, a ideia para este seu Um Presente no Passado nasceu de uma premissa algo perturbadora: “E se passados 25 anos surgisse nas nossas vidas alguém dos nossos tempos mais obscuros. Como seria?’. É disso que se trata, tudo embrulhado na forma de um thriller psicológico na maior parte das vezes eficaz e até certo ponto subversivo – quanto mais não seja porque não separa o bem do mal logo à partida (ao contrário, aliás, de filmes como Dormindo com o Inimigo e outros já citados).
Pena é que já tenhamos visto isto antes…e ainda não há muito tempo.
O Melhor: O ambiente permanentemente tenso e a fuga ao maniqueísmo primário
O Pior: Darem por vocês a pensar se tudo não passará de uma espécie de remake não oficial de um filme checo

Jorge Pereira

