«Solace» (Solace: Premonições) por Duarte Mata

(Fotos: Divulgação)

Quando os astros se alinham de uma maneira que ainda estamos por averiguar, chega a essa cidade sem lei chamada Hollywood um estrangeiro do qual pouco tínhamos ouvido falar, mas que se mostra capaz de criar algo subversivo e ousado dentro do sistema. Foi o caso de Milos Forman e de John Schlesinger. Ainda é cedo para afirmá-lo, mas agora esse forasteiro aparenta passar pelo nome de Afonso Poyart, realizador brasileiro com uma curta carreira, mas que, com este Solace – Premonições parece ser prometedora. O título do filme refere-se ao consolo de um tipo muito particular de “mágoa” (sorrow é o termo mais correto e intraduzível). Mas quem consola verdadeiramente nesta investigação policial onde uma psiquiatra e um detective pragmático se aliam a um médium (excelente Anthony Hopkins, num registo próximo ao do Silêncio dos Inocentes) para apanhar um homicida, também ele portador de capacidades psíquicas paranormais?

Solace é um thriller de uma inteligência que já não julgávamos capazes no mainstream (não por acaso, chegou a ser pensado como uma sequela a Se7en – Sete Pecados Mortais, chamado Ei8ht, onde o detective de Morgan Freeman adquiria esta clarividência). Os seus pontos fortes são três: o argumento, totalmente original, portador de uma ambiguidade moral perante o homicídio e ausente do moralismo que se espera em produções semelhantes; a montagem, altamente trabalhada, com um ritmo que impede que o espectador desvende o enigma por si próprio sem ser, no entanto, fastidiosa; e depois, Poyart, o elo essencial entre os dois, que introduz uma variegada e imprevisível découpage não deixando-a ofuscar a história, antes pelo contrário, procurando explorar recursos já conhecidos, mas não excessivamente popularizados, em contá-la (câmara lenta, time lapse, bullet-time… a criatividade de Poyart é inquestionável).

Falávamos na ausência de moralismo e não mentimos. O assassino (Colin Farrel) é um daqueles casos raros em que não se trata um psicopata com qualquer disfuncionamento sexual ou comportamentos impulsivos. Não, antes um homem perfeitamente racional e dotado das suas capacidades mentais (contrariamente ao vilão capturado a meio do segundo ato, necessário para evidenciar o contraste) e que, apanhado ou não, sai vencedor, deixando o final aberto e o espectador a confrontar com os seus próprios valores morais. Sim, estamos diante uma daquelas obras complexas na sua interpretação e que, em casos extremos, pode ser lido como pró-fascista (reiteramos, a ambiguidade e imparcialidade é para ser preenchida de forma subjectiva a quem a vir).

Por isto, Solace é demasiado saído da casca para se deixar ser ultrapassado por produções semelhantes (e que pena o seu maior defeito ser uma campanha de marketing fraca que não a permita tornar num dos favoritos à temporada de Óscares e Globos que se avizinham). E se são precisas quatro estrelas para vos convencer, então não as renegamos. Um dos filmes do ano, mesmo a tempo de fechá-lo em grande forma.

O melhor: Argumento, montagem e o seu equilíbrio.
O pior: um monólogo ligeiramente moralista a meio do filme e a última cena, expectável.


Duarte Mata

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