«Je Suis un Soldat» por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O realizador Laurent Larivière faz no seu filme de estreia um comentário social no rasto dos irmãos Dardenne (mas menos emocional), aumentando, ao lado de títulos como Uma Vida Melhor (Cédric Kahn), a lista de testemunhos sobre a “geração rasca” francesa.

Sandrine (Louise Borgoin) vive o pesadelo recorrente destes duros tempos onde a era do pleno emprego já se perdeu na memória de duas gerações atrás. Aos 30 anos, está desempregada, sozinha e tem que voltar para a casa da mãe (Anne Benoît). O agravante é que esta já está ocupada: por lá andam não só a irmã mal remunerada como o seu marido (idem) e a filha pequena. Numa situação desesperada, a rapariga que um dia foi para a cidade grande lutar pela vida vai parar ao canil de um tio incrivelmente rude (Jean-Hugues Anglade) a limpar os dejetos dos animais. Mas Sandrine é o soldado do título, uma analogia perfeita para descrever o processo de desumanização da protagonista, e não se entrega.

O realizador, coautor do argumento, tem tudo nos lugares: da apresentação fria, quase impessoal, da protagonista, ele parte para observar um processo de automação através do trabalho rotineiro, da falta de desejo (a cena com o veterinário) e na sequência onde a família ouve Quand Revient la Nuit, standard pop de Johnny Halliday, de onde se extrai o título do filme numa canção que fala metaforicamente de alguém que “espera um dia retornar”.

De resto, o processo aprofunda-se na forma como ela progressivamente fecha os olhos à uma realidade tanto imoral quanto perigosa. É quando entra em cena um segundo tema do filme, o pouco conhecido tráfico de animais domésticos, que ainda rendem umas cenas que podem incomodar os mais sensíveis. Da apresentação à uma solução um tanto já gasta nas andanças do cinema de autor, passando por alguns momentos mais viscerais (o ataque do cão), Larivière administra tudo com equilíbrio o que, se não chega para uma catarse, presta-se perfeitamente para o objetivo.

O melhor: globalmente equilibrado e coeso
O pior: a metáfora final pouco imaginativa


Roni Nunes

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