
Sempre haverá esperança para o cinema de género enquanto alguém ainda apostar no poder de uma boa história – particularmente em tempos onde o berço do entretenimento (Hollywood) limita-se a esboçar fiapos de argumento para servir de remendo à uma profusão de pantomina high-tech. O filme começa com o suicídio do protagonista, Sebastién (vivido por Matthieu Kassowitz), um pacato e amorfo agente imobiliário, e reconstrói o que se passou até esse trágico desfecho. Mas num filme de aparências e transmutações, nada é o que parece.
Um Ilustre Desconhecido sai do cenário único e do registo cómico de O Nome da Discórdia (Le Prénom), ótimo filme anterior de Matthieu Delaporte (realizado em parceria com Alexandre de La Patellière, que neste coassina o argumento) para enveredar por um thriller de várias facetas (literalmente). Aqui o protagonista só consegue sair do universo cinzento dos metros, escritórios e edifícios indistintos de Paris, signos do seu mundo mental e de 90% dos habitantes do mundo ocidental através da vivência de outras vidas.
Nesta história onde o sujeito está ausente, só a transformação de facto no outro, mais do que mera projeção, lhe confere identidade. Mas quando se envolve com um músico genial profundamente misantropo, ele próprio “decapitado” fisicamente da sua própria “voz”, a mão, Sebastién ultrapassa um limite perigoso, onde a fantasia lhe exige mais do que encenação e cuja ação, pela primeira vez, o envolve no assustador mundo dos sentimentos. Estes ligam-se à noção de paternidade e herança como forma de dar sentido ao ser humano em relação à ideia de agrupamento casual “de células e esperma“, conforme proposto pelo violinista – antes de arrematar que “o género humano é um género que não me interessa muito“.
Essa espécie de mistura da fantasia abstrata de Holy Motors com a engenhosidade metalinguística de um Dans la Maison só peca por alguns momentos onde a credibilidade da farsa é posta à prova (a cena da delegacia) além do recomendável.
O Melhor: um enredo globalmente inteligente e cheio de surpresas
O Pior: alguns momentos menos credíveis

Roni Nunes

