«Un Moment d’Égarement» (Um Momento de Perdição) por Virgílio Jesus

(Fotos: Divulgação)

Dois homens com 45 anos decidem reunir as filhas para passar uns dias de verão na solarenga ilha de Córsega, no Mar Mediterrâneo. Tanto Antoine (François Cluzet) como Laurent (Vincent Cassel) vivem, de alguma forma, assombrados pelos seus respetivos matrimónios, dos quais Louna (Lola Le Lann) de 17 anos e Marie (Alice Isaaz) de 18 são fruto. Tudo parecia correr às mil maravilhas, mesmo com o ininterrupto choramingar das adolescentes por não terem rede, até ao momento em que Laurent não resisti às investidas românticas da filha do seu melhor amigo.

De facto, Louna está bastante próxima ao retrato de descoberta sexual enunciado pela personagem Lolita. Criada por Vladimir Nabokov no romance do mesmo nome publicado em 1955, a obra já foi adaptada por duas vezes ao cinema, em 1962 e 1997. Já Antoine (interpretado pela estrela de Amigos Improváveis) é um progenitor superprotetor, que procura ser melhor que o seu próprio pai.

Com este conceito bastante básico, o seu enredo surge apenas como atualização moderna, nesta era digitalmente controlada pelas publicações de Facebook, do filme de Claude Berri de 1977. Mesmo assim, estamos no retrato fiel de problemáticas familiares que tão bem caracterizam o cinema francês.

Louna e Marie são puros estereótipos de uma sociedade que usa e abuso do livre-arbítrio, refugiando-se em discotecas que, embora ruidosas, refletem um vazio maior que a própria casa de campo. Confrontamo-nos com os incomodativos momentos de troca de olhares entre Laurent e Louna, mesmo sabendo que antigamente raparigas com aquela idade já estariam casadas. Quando ocorre, o momento de desejo confunde os batimentos cardíacos com a música. É a perdição irracional de dois seres humanos. Mais tarde, Louna revela ao pai que está apaixonada e este fará de tudo para descobrir qual o homem que abusou da sua filha. Neste ponto, concretiza-se eficazmente uma identificação da audiência com qualquer uma das personagens.

Os protagonistas conseguem envolver-nos nas suas vidas, pela fabulosa química entre Cassel e Cluzet. Não queremos, mas somos aqueles pais. Por sua vez, o medo de Antoine perder a sua “bebé” reflete-se na montagem. O segredo vai sendo revelado à medida que a caça ao javali se aproxima.

Provavelmente o que falta é uma maior tensão dramática do argumento. Algumas cenas, aliadas a uma fotografia excessivamente colorida, transmitem um tom cómico. Percebe-se a intenção do realizador Jean-Francois Richet, mas o debate psicológico gerado quando o seu público sair da sala não existirá. De grosso modo, as imagens surgem reclusas delas mesmas. No final, a premissa fica mal resolvida com especial enfoque na expressão “romance de verão”, que aliás parece querer continuar.

O melhor: Vincent Cassel por provar a sua versatilidade
O pior: prende-se a tons ligeiramente mais cómicos


Virgílio Jesus

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