«Le Dernier Loup» (A Hora do Lobo) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Com capital chinês (e uma ajuda francesa), o veterano Jean-Jacques Annaud pôde filmar uma aventura à moda antiga e abordar alguns dos seus temas e cenários preferidos – os animais selvagens (de O Urso), as paisagens orientais (de obras como O Amante ou 7 Anos no Tibete) e a relação dos homens com o meio presente em vários dos seus filmes – como A Guerra do Fogo.

O protagonista da história, baseada em factos verídicos que inspiraram o livro aqui adaptado, Chen Zhen (Feng Shaofeng), é enviado de Pequim, como parte da política de Mao-Tsé Tung nos anos 60, para uma remota aldeia da Mongólia (uma região da China, não o país) para conhecer a realidade do interior e ensinar as crianças locais a ler mandarim. Lá ele depara-se com a simbiose entre os humanos e o ambiente através da relação dos locais com os lobos das estepes. Entre as sábias (ou místicas…) palavras do velho mestre (Yin Zhusheng) e os olhares enviesados à sua filha Yang Ke (Ankjhnyam Ragchaa), o recém-chegado vê a sua simpatia pelo lugar crescer, tal como seu amor pelos animais.

A Revolução Cultural, um tema ainda espinhoso para os chineses que, por esta razão, procuraram um realizador ocidental (que não podia ser americano!) para realizar o filme, ganha um retrato com tintas menos escuras que as das obras de Zhang Yimou. De qualquer forma, o seu autoritarismo está intrínseco num amplo e implacável programa de homogeneização cultural, de resgate do país da ruralidade e da sua inserção no mundo industrial. Na prática, era tentar fazer em poucos anos o que o Ocidente levou séculos a fazer, com os custos da destruição da natureza e dos tradicionais (e supersticiosos) modos de vida ficando muito mais cruamente à mostra. Assim os lobos, tal como várias outras espécies na vida real, tornaram-se um alvo a abater.

Sem os tigres de CGI de Ang Lee, Annaud dignificou (e “humanizou”, tal como em O Urso) os animais – criaturas caracterizadas pela beleza selvagem e pela inteligência natural. A Hora do Lobo situa-se entre o épico histórico e a jornada heroica nos moldes da velha Hollywood, independente dos meios tecnológicos aqui usados, traço que a banda sonora de James Horner (Titanic) reforça.

Já o diretor de fotografia Jean-Mari Dreujou (também de Black Gold, trabalho anterior de Annaud) tem vida fácil com a exuberante natureza que tem para mostrar, enquanto o argumento intercala com maior ou menor sucesso os percalços da vida na aldeia – mas sempre deixando pontas soltas e conflitos sem explorar (como o romance e o processo coming-of-age). Já o subtexto segue alguns trâmites previsíveis e com profundidade relativa, como o avanço da industrialização, o fim dos velhos mitos, a descoberta do amor e a interferência do Estado na liberdade de escolha.

O melhor: é um épico eficiente e visualmente belo
O pior: às vezes previsível e superficial


Roni Nunes

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