
Obra que demonstra o quanto uma indústria bem-sucedida, normalmente sólida e racional, é capaz de embrenhar-se nas mais alucinogénias (e caras) desventuras. Como o título diz, o documentário trata do que aconteceu depois que a New Line Cinema, em 1994, decidiu apostar no projeto de um jovem realizador que pretendia dar vida ao clássico A Ilha do Dr. Moreau, de H.G.Wells. O sul-africano Richard Stanley, então com dois filmes valorizados no universo alternativo (Hardware e Dust Devil), tentava realizar o seu grande sonho de transpor para o grande ecrã o livro preferido da sua infância.
A “jornada amaldiçoada”, no entanto, começa por guardar algumas semelhanças com outra epopeia cinematográfica – as filmagens de Apocalipse Now – entre as quais a escolha de um local para as filmagens que, vista retrospetivamente, parece absurda (uma terra nos confins da Austrália, a 1000 km de Sydney, marcada por altos índices de pluviosidade). Além disto, ambos são marcados pela entrada tardia em cena do seu astro – Marlon Brando.
Mas, se no filme de Coppola o ator protagoniza um dos mais belos e intensos momentos da história do cinema, em A Ilha do Dr. Moreau ele dedica-se a infernizar a vida de John Frankenheimer, a estas alturas já no lugar do malfadado Stanley, despedido pelos homens do dinheiro por perder o controlo dos acontecimentos. As cedências feitas ao ator são da ordem do absurdo e impediram de todo que o experiente realizador de O Enviado da Manchúria conseguisse pôr no rumo um comboio desgovernado. Junta-se à confusão o comportamento contraproducente de uma estrela em ascensão, Val Kilmer, que, a dar crédito a tudo o que diferentes envolvidos disseram no filme, merece estar reduzido à sua atual insignificância.
Já David Gregory, realizador do documentário, deixa-se conduzir pelos testemunhos, que terminam por deixar pontas soltas (a atitude de Stanley nas reuniões de pré-produção e o seu progressivo isolamento ainda antes das filmagens), e não acrescenta mais elementos nem de ordem informativa, nem de criação visual.
O MELHOR: é daqueles documentários cuja história fala por si própria
O PIOR: O facto de Gregory não ter trabalhado melhor o seu material

Roni Nunes

