
Exercício de “terror de apartamento” e extremo low budget. Marta (Oona Chpalin, neta de Charles Chaplin) é uma mulher traumatizada e triste que fica sozinha na casa para a qual acabara de se mudar com o marido – que, no entanto, vai trabalhar. Tudo muda quando uma vizinha, desesperada, bate à sua porta para pedir que fique umas horas com Daniel, o seu filho pré-adolescente (Sérgi Mendez). À presença primeiramente incómoda do rapaz segue-se um imprevisto desenrolar de acontecimentos.
Maternidade, perda, dor e “visitas do além” são sempre temas sugestivos ao cinema de terror e estão presentes em obras recentes como Mama ou Babadook. Mas em Purgatorio não há monstros nem nenhum signo explícito de ameaça visual – antes, pelo contrário, o filme sustenta-se pela criação da atmosfera, pelo uso da escuridão e por um argumento que mantém o interesse através de uma história de fantasmas e de mistério solidamente construída.
Difícil de esquecer é a pobreza dos cenários e da iluminação, o que não chega a ser grave quando a falta de recursos se transforma no minimalismo dos detalhes (Paul Teixidor cria um drama com dois atores, um brinquedo infantil, um espelho e um apartamento quase vazio), e onde sobressai a personagem de Mendez, cuja ambiguidade garante a continuidade do interesse. Vencedor de um concurso de talentos espanhol que lhe permitiu o apoio para rodar o filme, Teixidor parece ter provado uma teoria qualquer sobre não serem preciso muitos ovos para fazer uma omelete. Agora resta saber se terá todos ingredientes para fazer um bolo.
O MELHOR: a atmosfera, o mistério e o personagem de Sérgi Mendez
O PIOR: quando a escassez de recursos interfere no resultado

Roni Nunes

