«I Am Here» Beça Gradiz

(Fotos: Divulgação)

O realizador e argumentista dinamarquês Anders Morgenthaler, mais conhecido pelo seu trabalho em animação, traz-nos o drama psicológico I Am Here, assente numa premissa que é tratada, praticamente, ao longo de cada cena e diálogo, adquirindo com o decorrer do tempo os contornos do bizarro.

Kim Basinger (9 ½ Weeks, Batman, L.A.Confidential) é Maria, uma executiva de sucesso duma transportadora marítima, atormentada pela impossibilidade de dar à luz. Após uma série de abortos não forçados, a sua obsessão e desespero levam-na a embarcar numa viagem arriscada, com a finalidade de realizar o grande sonho de se tornar mãe.

Morgenthaler apresenta-nos os três actos perfeitamente diferenciados, até por uma mudança patente de subgéneros, numa narrativa que carece de complexidade e nos faz saltar de um plotpoint para o seguinte, com uma manifesta escassez de peripécias.

A personagem de Basinger é o veículo da história, através da representação da sua instabilidade emocional, perda de racionalidade, talvez insanidade latente, ou mesmo imprudência, piscando o olho ao masoquismo. Com o propósito de nos incutir o “problema” de Maria e a sua tenacidade em atingir o objectivo primordial, somos confrontados uma e outra vez, tanto pela imagem como pelo texto, com o mesmo conflito interior, como se de uma explicação se tratasse e ainda precisasse de uma sobre-explicação.

Nota-se a dose de comprometimento da protagonista, mas a personagem não desenvolve, atravessando todo o filme no mesmo estado emocional e deixando-se levar pela sucessão de acontecimentos. Há um peso exagerado sobre os seus ombros, ao esperar que esta eleve o filme a um patamar superior de qualidade, sem ser acompanhada pelos restantes “instrumentos”. O caso duma câmara à mão que deixa a acção em banho-maria ou de um grande plano que se torna abusivo (acompanhado dum silêncio que resulta em tédio) pela falta de acumular de tensão, suspense e consequente envolvência do espectador, são exemplos. Talvez uma banda sonora mais presente não fizesse mal.

Como destaques secundários, no que respeita ao elenco, temos Jordan Prentice, o anão de In Bruges, que cumpre a sua função dentro do esperado e Peter Stormare, inesquecível em Fargo, a desempenhar a caricatura a que já nos habituou nos últimos tempos.

I Am Here é produzido pela Zentropa Entertainment, empresa co-fundada por Lars von Trier e grande impulsionadora do movimento Dogma 95. Apesar de ter lançado alguns clássicos contemporâneos, para além duma boa quantidade de outras obras interessantes, é também responsável por alguns dos objectos mais truculentos das ultimas décadas. Os temas abordados no filme, em especial no terceiro acto, são a cara da produtora que sempre ousou correr riscos, quebrar regras, explorar tabus e provocar o choque, ainda que neste caso ande de mãos dadas com o gratuito, marcado por um sofrimento superficial e uma certa falta de humanidade.

O melhor: A beleza natural da protagonista que acaba por roubar muitos frames.
O pior: Tentar ser mais do que na realidade é.


Beça Gradiz

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