«Ponts de Sarajevo» (As Pontes de Sarajevo) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Na introdução do seu livro A Era dos Extremos, o historiador Eric Hobsbawm relatava uma visita feita pelo ex-presidente francês François Miterrand a Sarajevo, em junho de 1992. Já então desenrolava-se a guerra da Bósnia que, só naquele ano, iria custar 150 mil vidas. A data não era gratuita: Miterrand tinha escolhido o preciso dia em que, em 1914, o assassinato do arquiduque Francisco Fernando havia desencadeado a 1ª Guerra Mundial. Mas, salvo alguns historiadores ou pessoas muito idosas, ninguém percebem a alusão. Como diz Hobsbawm, “a memória histórica já não estava viva“.

Mas, se a destruição do passado é um “dos fenómenos mais lúgubres do século“, como acrescenta a seguir, este filme pouco fez para o recuperar. As Pontes de Sarajevo interliga estas duas memórias trágicas da cidade, abordadas aqui por 13 cineastas das mais diversas proveniências. A obra segue, sempre que possível, uma ordem cronológica, iniciando com o episódio que narra os bastidores do assassinato do príncipe herdeiro do Império Austro-Húngaro.

Mas se a ideia era fazer este tipo de resgate, o filme falha na medida em que a maior parte dos cineastas que abordam a 1ª Guerra Mundial nos episódios iniciais ficaram-se por experiências demasiado inócuas, carentes de vigor ou imaginação (ou excesso dela, como no caso de um Godard muito fiel a si próprio) para estabelecer o que quer que seja – ainda que algumas tentem fazer a conexão entre os terrorismos de ontem e os de hoje. No melhor deles, Leonardo di Constanzo (premiado no Lisbon & Estoril Film Festival em 2013 com L’Intervallo) abandona completamente o assunto e prefere evocar os mortos italianos esquecidos. Com o material e, pode-se dizer, a responsabilidade que tinham nas mãos, o resultado é frustrante.

A coisa melhora quando o racionalismo etéreo/esteticista dá lugar a sentimentos bem vivos – e aí o espectador já se encontra junto dos fantasmas da Sarajevo da década de 1990. A partir de 1992, a cidade foi vítima do mais cruel e longo (quatro anos) cerco do pós-2ª Guerra – acontecimento solenemente ignorado pelos governos europeus da altura, os mesmos que, hipocritamente, foram anos depois condenar militares sérvios por “crimes contra a humanidade”.

Há a bela história de Marc Recha, A Viagem de Zan, que evoca a dimensão da tragédia através do Alain Resnais de Hiroshima Mon Amour (“você não viu nada…em Sarajevo“), as assombrações do passado incidindo no presente em A Ponte, de Vicenzo Marra, e contributos com alguma carga emocional da residente local Aida Begic (Álbum) e da francesa Isild Le Besco (O Rapaz). O melhor, no entanto, fica com a suíça Ursula Meier (de Irmã), que opera através da história de um menino perdido no gigantesco cemitério da cidade um casamento perfeito entre as memórias dolorosas e um futuro incerto, entre os vivos e os mortos.

O melhor: a emotividade das histórias que evocam o cerco de Sarajevo; o episódio de Ursula Meier
O pior: abordagem demasiada inócua e esteticista da história


Roni Nunes

 

 

 

 

 

 

 

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