«Après mai» (Depois de Maio) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

O pragmatismo cético dos dias que correm não deixam margens para dúvidas: a odiada burguesia venceu e as fantasias juvenis de revolução social dos 60s são objeto de escárnio ou de uma melancólica nostalgia. A temática já rendeu pelo menos dois magníficos requiens no cinema recente: o cáustico As Invasões Bárbaras, de Denys Arcand, e o poético Os Sonhadores, de Bernardo Bertolucci. Portanto, quando se trata de um filme chamado Depois de Maio, resta saber que espécie de obituário lhe concedeu Olivier Assayas.

Gilles (Clément Métayer) é um estudante envolvido na causa revolucionária que enfrenta a polícia, promove ações anárquicas, faz viagens, tem namoradas, faz desenhos, quer fazer cinema, lê em grande quantidade. No desenvolvimento do enredo, será o único personagem constante.

As sequências de ação no primeiro terço demonstram que a crença num mundo socialista continua bem viva depois de três anos passados do maio de 68. Já se pode imaginar que o ritmo vai decair na medida em que os signos do fim de uma era (drogas pesadas, entrega ao conformismo, os atos terroristas) vão se espalhando pela obra e vão selando o destino destes jovens que ainda acreditam no futuro da causa operária, com elementos hippies ainda bastante vincados mas sem deixar de ser os filhos cultos de uma burguesia que detestam.

A abordagem de Assayas investe numa construção etérea e onde um carácter fantasmagórico reveste as idas e vindas dos seus jovens que aparecem e desaparecem ao sabor de uma propositada evanescência. Menos voltado para o cinismo ou para a melancolia (ainda que está seja de todo inevitável) Assayas vai retirando a política do seu protagonista e entregando-o ao carácter existencial que a citação de Pascal no início do filme revela (e que Gilles não escuta, mais concentrado em desenhar o símbolo anarquista): “Entre nós, o céu e a terra, entre o inferno e o vazio, existe, assim, a vida, a coisa mais frágil do mundo”. E é esta dimensão que vai tomando conta dele, como simboliza a bela cena na rodagem de um filme em Londres, onde Gilles se funde a um matte painting.

O pecado maior deste retrato é por vezes sucumbir a um certo carácter tão esmaecido quanto à fotografia utilizada para recriar aqueles tempos, que reduzem seu impacte emocional nas suas nuanças pálidas.

O Melhor: É mais uma abordagem justificada dos idealismos dos anos 60
O Pior: Falta-lhe intensidade em certos momentos


Roni Nunes

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