«Les Grandes Ondes» (As Ondas de Abril) por Roni Nunes

(Fotos: Divulgação)

Os portugueses são atrasados, mas simpáticos“. Essa frase é proferida no início desta produção onde suíços “homenageiam” o 25 de Abril, escancarando as portas para o simplório e descarado paternalismo que virá a seguir.

O filme segue as desventuras de uma equipa de jornalistas da rádio suíça que vem a Portugal sob pressão do seu governo para fazer uma reportagem positiva sobre a atuação do seu país no exterior. Vive-se o melhor do filme quando os três, aos quais se somará um adolescente luso transformado em tradutor, percorrem terriolas com estradas sem saída e bifurcações sem sinalização à procura de obras inexistentes ou insignificantes.

Mas se no início é apenas um filme tosco que eventualmente consegue ser engraçado, na segunda metade os constrangimentos dão lugar às risadas – particularmente no momento crucial em que os quatro “estarolas” descobrem que se está a passar uma revolução no país. Com a chegada do quarteto a Lisboa, o realizador Lionel Baier transforma o 25 de abril num circo, com o ambiente festivo do fim da ditadura rapidamente evoluindo para orgias sexuais – uma ridícula confusão entre revolução política com liberalização comportamental. Mais ingénuo do que maldoso, o disparate continua com a simplória conexão entre o “espírito” de 1974 com os “protestos” que se fazem hoje contra as políticas de austeridade.

Em termos de cinema, Baier mistura elementos de Nouvelle Vague com a Hollywood clássica, sem que isso seja propriamente produtivo, para além de falhar ao tentar dar um carácter emocional aos seus personagens progressivamente desinteressantes.

Com o inferno lotado de boas intenções, nada sobra para resgatar esse filme da sua inutilidade intrínseca.

O Melhor: alguns momentos de humor no início do filme
O Pior: uma proposta ingénua para um filme tosco


Roni Nunes

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